Pega o crucifixo, bota o colar de alho no pescoço, se perfuma com água benta, que vamos mergulhar no reino das trevas dos quadrinhos. Risada maligna, produção!

Sobreviveu a essa malícia toda? Então acho que você encara uma conversa sobre quadrinhos de terror.

Pra começar, tem um monte deles. Mas quadrinho de terror bom? Isso já é raridade. Em outra época eu falei aqui nessa coluna que quadrinho não se dá bem com susto. É algo que funciona no cinema: tá lá o sujeito no bem bom e de repente sai do armário um monstro enfezado, com um estrondo de trilha sonora para acompanhar. No filme, a gente não vê o que vai surgir, um fotograma dá lugar a outro em tempo real. Nos quadrinhos, toda a narrativa se estende para gente. É quase impossível ver o quadro de cima começando uma página sem ver o último quadro.

Mas o quadrinho leva jeito para causar arrepio, deixar o leitor assustado de virar a página e ao mesmo tempo ficar louco para continuar. E para atingir o ponto certo e imprimir no leitor o medo, um bom quadrinho de terror precisa se basear em quatro pilares: ambientação, suspense, identificação e nudez desnecessária questionamento. Claro, uma história pode se sustentar mais em um pilar do que nos outros, mas é bom ter pelo menos um deles bem sólido.

Ambientação é o mais básico e começa na capa. É preciso que o leitor sinta que está num quadrinho de terror. Muitas histórias são curtas, e quanto mais o autor conseguir passar numa página, melhor. E não estou dizendo com isso para deixar a sutileza de lado e enfiar caveiras, túmulos e névoas em tudo quanto é quadro. Uma boa ambientação precisa apenas tirar os personagens, e o leitor, de seu lugar de segurança. E uma forma simples de fazer isso é usando formas mais cortantes para compor a cena (ângulos retos e agudos), em vez de formas redondas que são mais confortáveis aos olhar.

Vamos tomar como exemplo uma página da história “A Lady’s Hands Are Cold”, do livro Through the Woods de Emily Carrol. Uma jovem vai morar com um homem rico num casamento arranjado por seu pai. Nós não sabemos nada da moça, e muito menos sobre o homem. Talvez ele possa ser uma pessoa boa, quem sabe. O leitor simplesmente acompanha a jovem cumprindo seu dever e passando o primeiro dia na grande mansão do marido. Então, vem o jantar, e a nossa página, em que o marido é mostrado comendo. Repare como é ameaçadora a cena:

A própria fragmentação da narrativa em vários quadros cria tensão.
A própria fragmentação da narrativa em vários quadros cria tensão.

A arte é composta quase só de retas e ângulos agudos: o garfo, a faca, o rosto do marido, os dentes — eles são enormes e parecem afiados. As curvas mais suaves marcam a fragilidade: a carne sendo fatiada, o pescoço da mulher. Esse contraste de formas transforma o marido de um personagem distante para quase um monstro. É o bastante para deixar o leitor em alerta.

Mas a página vai além e usa vários outros recursos para criar o clima de terror. Não só as formas vão contribuir para nossa aflição. Teremos também as cores, principalmente o vermelho. Ele se espalha por todos os quadros, representando o sangue literalmente — o sangue da carne em contraste com o preto, e escorrendo pela boca do marido e no prato —, e figurativamente — o laço no pescoço da jovem, que nos remete a um corte.

A figura de linguagem se intensifica quando, ao lado do quadro do pescoço, é posto um quadro do prato sujo de sangue, em que o desenho na borda do prato remete à gola do vestido da jovem. Uma associação nada inofensiva.

Todas essas imagens criam uma expectativa. E expectativa significa suspense, o segundo pilar das histórias de terror.

Existem duas formas tradicionais de criar suspense. Algo misterioso acontece ao personagem: pode ser que ele veja uma pessoa que deveria estar morta ou um objeto inanimado que se move sozinho ou quem sabe ele é tomado por visões apocalípticas. É o tipo de suspense que levanta perguntas como o que ele vai fazer? O que está acontecendo? O que é aquela coisa? Quando isso acontecerá de novo? Essa expectativa pode ser resolvida numa cena ou ao fim do quadrinho. Existe um risco de se apoiar apenas no suspense para contar uma história, o de não satisfazer as expectativas, como provam os piores filmes do M. Night Shyamalan.

A outra forma tradicional de criar suspense é dar uma informação ao leitor que o personagem não tem. Por exemplo, você vê um morto-vivo atrás do personagem que está de boa comendo um sanduíche. Ou o personagem encontra um livro com palavras que, como o espectador já sabe, invocam o demônio e ele leva o livro para casa, criando a expectativa de que ele ou alguém vai acabar lendo as palavras. Ou nós descobrimos que o monstro é, na verdade, bonzinho, mas o protagonista, sem saber, prepara-se para dar um tiro fatal no monstro. É um suspense que nos dá um ar de impotência e casa muito bem com uma montagem paralela.

Mas para o suspense funcionar é preciso você se importar com o personagem, entrar na pele dele, se identificar. Sim, o terceiro pilar! A identificação.

O medo geralmente está muito mais dentro de nós do que na coisa temida, é algo pessoal. Tem a ver com nossas experiências e traumas. O autor de quadrinhos tem que fazer a pessoa vivenciar o mundo pelos olhos do personagem. O texto narrativo (tanto em primeira quanto em terceira pessoa) é muito eficaz nesse sentido, pois pode mostrar os pensamentos e sensações do personagem de maneira econômica, o que seria quase impossível só com a imagem.

Black Hole, de Charles Burns
O texto nos dá a experiência do personagem, e a “câmera” assume a direção do seu olhar. (Black Hole, de Charles Burns)

A palavra pode adicionar emoções contraditórias à imagem; movimentos a quadros estáticos; e cheiro, textura e som ao visual.

A palavra, no entanto, não é obrigatória. E pode atrapalhar, quando é explicativa demais. A imagem por si só basta. O fato de vermos mais um personagem do que outros já cria uma identificação. Assim como posicionar a “câmera” na altura dos olhos desse personagem ajuda a nos colocar em harmonia com ele. Um personagem que aparece sempre visto de baixo para cima, pelo contrário, vai parecer distante e autoritário.

A composição de um quadro pode nos dizer claramente com que personagem o autor quer que nos identifiquemos. Dá uma olhada no quadro de “His Face All Red”, de Emily Carroll.

Você pode ler a história neste link.
Você pode ler a história neste link.

Repare: podemos ver um personagem somente, ao fundo. O outro, em primeiro plano, não vemos nem a cabeça. Deixar um rosto fora de quadro é uma maneira de tornar essa figura mais ameaçadora: um corpo sem identidade. E se não tem identidade, não é possível identificação. Além disso, veja como o homem ao fundo está pequeno com relação àquele cujo rosto não podemos ver. Isso torna o personagem frágil e vulnerável, e nós tendemos sempre a nos solidarizar pela pessoa mais fraca — mesmo quando ela não é lá uma das melhores pessoas, como é o protagonista desta história.

A partir da identificação nós podemos compreender o personagem, e compreendendo o personagem podemos entender quais são as questões que a história traz. Estou falando do pilar mais frágil de boa parte das obras ruins do gênero: o questionamento.

Toda boa história de terror é uma história sobre ignorância. Elas viram o mundo de cabeça para baixo, colocando nossos valores em xeque e questionando o quanto conhecemos sobre a realidade e sobre nós mesmos. O protagonista vai sempre estar numa situação inicial de ignorância. Ele pode atingir um entendimento da realidade que afaste os horrores. É a máxima do “tememos o que não conhecemos”. Talvez o fantasma só queira sua ajuda. E a fera seja um príncipe enfeitiçado. E o monstro só deseje companhia.

Em outras histórias o conhecimento pode ser uma maldição. Se você descobrir que seus pais são assassinos seriais, independente de entregá-los ou não para a polícia, você nunca mais vai vê-los como antes. Se conhecer uma realidade sobrenatural, talvez isso o acabe isolando da sua própria realidade. E o que, afinal, pode-se fazer se descobrir que os líderes mundias são seres lagartos alienígenas? São histórias que nos levam a refletir sobre a responsabilidade de deter o conhecimento.

E isso não é papo cabeça, não! Porque esse embaralhamento de valores e perguntas morais filosóficas e éticas acaba propiciando um bom espaço para o humor. Grandes comédias de terror aproveitam situações apocalípticas para zoar o moralismo, a propriedade privada e outras ideias a que somos apegados. E só pensar em filmes divertidos como Todo mundo quase morto, Zumbilândia, Gremlins, Evil Dead, The Rocky Horror Picture Show e Além da imaginação.

Cuidando bem da ambientação, do suspense e da identificação, o questionamento pode ser simples e direto. Funciona. O que não dá pra aguentar é um monte de história de pessoas fugindo de monstros ou metralhando zumbis até a última página, e a coisa parar por aí. Fica parecendo Scooby-Doo. Só que com menos conteúdo.

Esqueça o pilar do questionamento, e a casa desaba.

E pra quem não quer se arriscar a ficar soterrado sob os escombros de uma história ruim, alguns quadrinhos confiáveis e sólidos: Emily Carroll e suas webcomics, Black Hole, Fantasma de Anya, Monstro do Pântano, Hellboy, We3, Os mortos-vivos (The Walking Dead), Cowa, Yu Yu Hakusho, Uzumaki e qualquer quadrinho do Neil Gaiman.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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