Faz um tempo, participei de uma reunião muito difícil com um antigo chefe. Estávamos em uma negociação muito complicada, onde uma das partes se exaltou, ultrapassando o limite do respeito. Nessa hora, ele tomou a palavra e disse algo como: o que você esta defendendo pode até fazer sentido, mas se você errar na forma, vai perder no conteúdo. Essa colocação ficou circulando aqui na minha cabeça desde então. A relação entre forma e conteúdo é muito viva e isso fica claro se olharmos, por exemplo, para a arte.

A forma que uma obra se apresenta tem uma relação direta com a questão que o artista esta propondo, onde as escolhas estéticas são pautadas para agregar ao conteúdo. Desde o material utilizado ao local que obra será exposta, no caso das artes plásticas. Mas na poesia não é diferente, pois nela cada virgula ou ponto tem uma sentido de estar ali, que muitas vezes se sobrepõe até a gramática, em razão ao seu compromisso maior com a questão explorada pelo poeta. No poema abaixo, por exemplo, Leminski escreve a mão “eu assino” reforçando ainda mais o fato dele estar assinando.

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A questão que quero trazer aqui é sobre apresentação de um projeto, onde creio que deva haver uma relação forte entre a forma e o conteúdo. Quando penso em um projeto, seja ele qual for, conteúdo e formato precisam estar harmonizados. Isso faz com que você comunique melhor sua ideia e gere empatia com o interlocutor. A desarmonia entre essas duas coisas gera (pelo menos para mim) um certo desconforto.

E vejo também que a forma de apresentação de um projeto sofre influências intrínsecas e extrínsecas, duas forças que atuam sobre as escolhas que fazemos na hora de apresentar um projeto. A primeira, que já vim desenvolvendo, é a relação com o conteúdo do projeto. Um exemplo bem simples: imagine um projeto cujo conceito é inovador, será que uma apresentação em um powerpoint duro, com cores sóbrias, planilhas e gráficos clássicos seja a melhor forma? Nesse caso, penso que o projeto precisa trazer na apresentação um pouco da inovação que ele propõe. Se a forma de apresentá-lo for, em certo grau, também inovadora, haverá aí algo não dito que fala muito sobre o projeto. Por isso considero o desenvolvimento da questão, do conceito do projeto, muito importante e passei o post passado falando sobre isso.

A outra força que mencionei é externa ao projeto e está no contexto. Uma vez que você identificou interesses comuns entre seu projeto e uma pessoa ou instituição e tem uma apresentação marcada, a forma de apresentar essa ideia vai depender também de algumas perguntas: Para que pessoa e/ou instituição você vai apresentar o projeto? O que a pessoa que vai te receber espera ouvir? Quem é essa pessoa? Quem é essa instituição? De que forma eles pensam? Qual o histórico de cada um? Perguntas muito óbvias, eu sei, mas não menos importantes e também nem tão simples de responder. Mas com uma boa pesquisa evitam-se coisas básicas como usar uma cor do concorrente do seu patrocinador na sua apresentação.

Para mim, esses dois fatores, sendo os internos em maior grau, permeiam a formatação de um apresentação. Um projeto pode ter várias apresentações, que dão prismas de visão para uma mesma ideia e com isso conquistam o interlocutor pela linguagem que lhe for mais afeita.

Basicamente, uma apresentação é um processo de convencimento, por isso a primeira pessoa que você deve convencer é você mesmo. Você, de fato acredita na ideia que você esta vendendo?

Fica a pergunta.

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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