Imaginem um lugar onde milhões de crianças e adolescentes têm um computador pessoal para poder ler, escrever e estarem conectadas ao mundo virtual. Pensemos em um país que mande satélites que desde o espaço distribui seus filmes. E se no lugar da Finlândia, Noruega ou Dinamarca estivéssemos falando sobre as conquistas dos últimos doze anos da Argentina, um governo que, pejorativamente, foi considerado como populista, comunista e até ditador.

No país, até o ano 2015, 1428 salas digitais foram construídas e cinco milhões de computadores foram entregues a alunos e docentes da rede pública de ensino. “Concectar Igualdad”, projeto encabeçado pela ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner, foi executado graças ao desenvolvimento de um sistema operacional próprio, de software livre chamado “Huayra”, com o objetivo de diminuir a brecha digital que havia na Argentina.

Em paralelo a essa política de Estado, em 2011 foi edificada uma megamostra de arte, ciência, tecnologia e indústria: “Tecnópolis”, que possuía proporções maiores que qualquer outra na América Latina. Com entrada gratuita, a feira recebeu até o dia do seu fechamento (29 de novembro de 2015) 5.200.000 pessoas, dentre elas, visitantes de organizações sociais e alunos de diversas escolas do país.

Vista aérea da Tecnópolis.
Vista aérea da Tecnópolis.

Em prol da diversidade e da liberdade digital, essa política de estado exitosa chegou, literalmente, à exosfera. Através de um acordo entre o Instituto Nacional de Cinema da Argentina (INCAA), o país desenvolveu uma plataforma de streaming online, com produções nacionais, similar ao Netflix, para ser exibida através da empresa de satélites ARSAT, reforçando a soberania conquistada depois de muitas décadas de alienação e dependência.

A ARSAT, que até então era constituída como sociedade anônima com 100% do capital com ações que correspondem a ministérios do Estado, foi a única empresa do sul do continente a lançar dois satélites com produção nacional, que buscou implementar uma Rede Federal de Fibra Ótica com o objetivo de criar o data center mais seguro do país. A empresa também construiu um sistema Nacional de Televisão Digital, com o fim de transmitir de maneira gratuita e aberta sinais de tevê digital, com a mais alta qualidade de imagem e som a todo o país.     

Estamos contanto um pouco sobre um passado recente de uma Nação que há 33 anos saiu de uma Ditadura Militar sangrenta e que em 2001 sofreu a pior crise econômica de sua história, quando o país esteve em uma real banca rota. Mas infelizmente, depois de conseguir manobrar esses percalços, a Argentina perdeu para a amnésia e para a truculência de uns poucos. Maurício Macri, o atual presidente da Argentina, está abusando de seu poder conquistado nas urnas para disseminar a mesma violência dos tempos dos milicos, açoitando brutalmente os direitos humanos.

A incompetência da nova gestão presidencial do senhor Maurício é comprovada pela demissão de 22 funcionários da ARSAT e 1.000 do projeto “Conectar Igualdad”. A esses números neoliberais, somamos a entrega às mãos francesas da megafeira Tecnópolis com a desculpa de intercambiar assessoramento e apoio metodológico na gestão de eventos.

Em nome da “liberte, égalité, fraternité“, Macri deixou explícita sua ignorância durante a última recepção do presidente da França, François Hollande, no centro cultural Nestor Kirchner. 

Vale lembrar que além de não saber a ordem das cores que retratam o lema da Revolução Francesa, antes desse evento, Macri havia mandado fechar o centro cultural Nestor Kirchner e demitir 500 trabalhadores, sem aviso prévio, com o pretexto de que o lugar não tinha a habilitação apropriada para funcionar. Uma contradição total.

Esse cenário de conquistas e disputas, de demissões e de muita tristeza relata o entreguismo que anda circulando através dos governos neoliberais. E para aqueles que andam pedindo um “Macri” para governar o Brasil, andem logo praticando seu francês, porque é de um dia para o outro, literalmente, que milhares de funcionários estão perdendo seu emprego.

Texto escrito por Manga, colunista correspondente na Argentina que prefere não identificar seu verdadeiro nome.

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