O texto de hoje é dedicado àqueles que tem preguiça até de ler quadrinhos. Se você acha que ler um balão de fala gasta seus lindos olhinhos, não se preocupe. Há ótimas animações baseadas em quadrinhos. Afinal, essas duas artes são tão parecidas que é natural buscarem inspiração uma na outra.

E eu, que sou seu camarada, vou te poupar o trabalho e listar algumas adaptações para você assistir e ler.

 

Dossie Rê Bordosa, dirigido por Cesar Cabral

Rê Bordosa, a maluquete número 1 do Brasil, os anos oitenta transformados em mulher. Para quem não conhece, ela é uma personagem criada pelo cartunista Angeli que só quer saber de fazer sexo e encher a cara, não necessariamente nessa ordem. A animação, feita em stopmotion, é uma espécie de documentário sobre a vida dela, investigando o que levou à sua morte. O legal é que conta tanto com personagens do universo do Angeli quanto pessoas da vida real, como a Laerte (antes de sair do armário). É uma ótima forma de conhecer o universo underground do Angeli. A Rê Bordosa também aparece em outra animação brasileira, Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll.

 

Persépolis, dirigido por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud

Eu já falei tanto desse quadrinho aqui na coluna, mas tanto, que eu não sei como você ainda não leu. Olha, repetindo então, trata-se da história da própria autora, Marjane Satrapi, e sua passagem da infância para a vida adulta no Irã durante a ascensão do islamismo.

O filme de animação tradicional tem a mesma qualidade do quadrinho. Sério! Eu não sei dizer qual é o melhor. No filme foi adicionado um cinza ao preto e branco da HQ para dar mais profundidade. Isso podia diluir o forte contraste da estética original, mas houve um cuidado para fazer um cinza bem sujo e chamuscado, que contribui para dar tensão. Quanto à história, houve praticamente zero corte do original.

É para rir, chorar, ficar tenso, rir de novo e voltar a chorar. Cuide para que ninguém te veja assistindo, ou vão achar que você tem algum problema. (Veja na dublagem original, em francês.)

 

O gato do Rabino, dirigido por Joan Sfaar

O gato do Rabino come um papagaio e aprende a falar, e a questionar. Ele é um animal, mas é apaixonado pela filha do Rabino e pensa como um homem. Não só isso, como ainda quer um bar mitzvah! É um mote meio doido, mas funciona como uma discussão bem humorada sobre religião, principalmente sobre as origens do judaísmo, saindo do estereótipo nova-iorquino neurótico ou ortodoxo de cabelo enroladinho.

O judaísmo de O gato do Rabino é multiétnico e cheio de conflitos, provando não só a nossa ignorância cristã sobre as outras religiões, mas também a ignorância que os judeus e muçulmanos têm sobre eles mesmos. O filme, de Joan Sfaar (autor também dos quadrinhos), não é nenhuma obra-prima, mas é diferente de tudo que tem sido produzido por aí e trata de um assunto muito pertinente: tolerância.

 

Akira, dirigido por Katsuhiro Otomo

Kanedaaaaaaaaaaaaaaa! Tetsuoooooooooooooooo!

Só vendo o filme pra entender. 😛 Adaptado de uma série de mangá (que vai ser relançada no Brasil ainda este ano), Akira é uma das obras mais marcantes da minha infância, apesar de não ser nem pouco infantil. Muitos pesadelos meus foram inspirados neste desenho cyberpunk.

A história se passa num futuro pós-apocalíptico, em Neo-Tokyo, onde as ruas são dominadas por gangues de jovens que, quando não estão brigando, estão tomando drogas. Kaneda, líder de uma dessas gangues, tem a vida virada do avesso depois que seu amigo Tetsuo desperta poderes paranormais e é levado pelo governo. A combinação adolescente + poderes paranormais + vício em drogas dá, claro, em merda. E Tetsuo passa a ser um perigo para seus amigos e para a cidade.

Mais de 20 anos se passaram desde o lançamento do filme, e a animação continua visualmente incrível. E ainda possui a moto mais foda já vista em qualquer tela.

 

Menção Honrosa – The Peanuts Movie, dirigido por Steve Martino

Ainda está para sair nos cinemas, mas a adaptação das tirinhas de Charlie Brown e Snoopy anda chamando atenção.

O visual é perfeitamente fiel ao traço do Shulz, tem aquelas linhas meio tremidas e irregulares tão características, mas o tom do filme parece ser bem moderno. As cenas são rápidas, cheias de humor físico e a trilha conta com música pop.

Tudo indica que a história vai ser uma comédia romântica, em que Charlie Brown tenta conquistar, ou ao menos falar com a menina nova do bairro. Será que dessa vez vai, Charlie? Fiquem aí com o trailer.

 

Bons filmes!

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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