Desde o tempo dos homens da caverna, nós sabemos que o mundo é um lugar assustador. Não é preciso ter muitos neurônios para chegar a essa conclusão. Predadores, desastres climáticos, plantas venenosas, escuridão, barulhos inexplicáveis, especulação imobiliária das cavernas. A vida era uma luta pela sobrevivência. Logo não era de se impressionar que o tema das conversas entre nossos antepassados fosse sobre o terror da vida.

E logo que um deles conseguiu fazer a primeira fogueira, todos se juntaram ao redor e começaram a contar histórias, geralmente sobre um casal de homem e mulher da caverna que procura um canto afastado para o velho oba-oba, quando de repente um ser monstruoso aparece por trás de um arbusto e faz seus corpos em pedaços. Foi o começo do gênero mais popular dentre todos, o terror, e de seu clichê mais antigo.

Nunca mais chego perto de um arbusto desarmado.
Nunca mais chego perto de um arbusto desarmado.

Acho difícil existir alguém que não tenha visto essa cena uma vez na vida, variando apenas o cenário ou o tipo de ser monstruoso. Ela é praticamente onipresente. Está em vídeo, está no cinema, na literatura, nos video games, já passou pelo rádio, e não podia deixar de estar nos quadrinhos. Porém, numa forma de arte tão ligada à cultura pop, é interessante notar que poucas pessoas conhecem grandes personagens de terror dos quadrinhos.

Quando a gente fala de cinema, é fácil. Temos Jason, Freddy Krueger, Alien, Predador, A Bolha Assassina, Vermes Malditos, Tubarão, vampiros famosos (de Drácula a Lestat e a Edward, o vampiro que brilha do Crepúsculo). Mas ao irmos para o quadrinho, são raras as histórias e personagens ocupando o imaginário coletivo. Temos agora Walking Dead, originalmente lançada em revista e adaptada para série de TV, só que a série hoje ultrapassa em muito a popularidade dos quadrinhos. Da mesma forma a literatura de terror ficou meio para trás, tornando-se mais conhecida pelas adaptações do que pelas obras originais.

E a razão disso é porque o audiovisual é o meio perfeito para o susto. Aquele sustinho que faz a pessoa dar um pulinho na cadeira e soltar um gritinho, para depois rir de si própria ou do colega ao lado. Um efeito facilmente atingido por mecanismos ausentes (pelo menos em parte) na literatura e nos quadrinhos. O primeiro e mais importante é o áudio, mais precisamente a trilha. Uma música crescente, com sons agudos e abruptos, que explode quando o personagem abre uma porta, um armário, ou simplesmente se vira para encontrar a ameaça. O símbolo do uso da trilha sonora para criar suspense é a cena do banheiro no Psicose.

Barulhos da própria cena também são usados para causar sustos. O som repentino de um trovão, ruído de passos, barulho de caixas e coisas caindo. É um clichê tão grande que logo os próprios filmes de terror começaram a brincar com isso e criaram um outro clichê: o protagonista, tenso por causa de um barulho estranho, abrindo uma porta para se deparar… com um simples gato fulo da vida.

 

Somada à trilha, nós temos o segundo mecanismo, que pode parecer óbvio a princípio mas é muito particular do cinema e das mídias audiovisuais. Estou falando do tempo cronológico, da forma sequencial como as imagens se procedem. Nós vivenciamos um filme como vivenciamos a vida, no presente, sem conhecer o futuro. Nós não temos como dizer que de repente vai aparecer uma caveira, ou que a cabeça do personagem vai explodir. Esse desconhecimento, esse fator surpresa, é essencial para o susto.

Na literatura, você lê uma história narrada, como se alguém estivesse contando algo que já aconteceu. O momento é menos importante. É diferente você ler “Fulano abriu uma porta, e um monstro gigante com tentáculos arrancou sua cabeça” e ver isso de fato. No texto, o tempo que leva para ler a descrição da cena e do monstro reduz o potencial de susto. Na imagem, isso ocorre num segundo; em um momento o cara está com a cabeça, no outro ela está rolando pelo ar.

Mas e o quadrinho?, você me pergunta. Ele também é feito de imagens, ele também é sequencial. Sim, correto, mas todas as imagens de uma página se mostram ao mesmo tempo ao leitor. É impossível não ver o desfecho de uma ação. Só se esse desfecho estiver depois de uma virada de página. Mesmo assim é bem provável que você tenha folheado a revista antes e visto o fim da cena. Apesar de sequencial, no quadrinho é como se toda linha do tempo estivesse aberta para o leitor, que navega por fragmentos de acordo com regras: ler da esquerda para a direita (nas histórias ocidentais) e de cima para baixo.

Página de Walking Dead, lançado no Brasil como Os Mortos-Vivos, pela HQM Editora.
Página de Walking Dead, lançado no Brasil como Os Mortos-Vivos, pela HQM Editora.

Sem a trilha, sem o tempo cronológico do audiovisual, toda vez que os quadrinhos e a literatura tentam causar susto no leitor, eles fracassam ou se tornam chochos. Mas não só de susto vive o terror. O susto é mecânico, é breve. Não faz de nenhuma obra ser um clássico, apenas entretenimento. O negócio mesmo é o arrepio.

Aqui eu chamo de arrepio mais um sentimento de angústia do que a reação corporal em que os pelos da pele ficam eriçados. É quando você quer desviar os olhos do filme, mas fica hipnotizado. O verdadeiro assombro. Isso não se atinge com estrondos e coisas aparecendo do nada. É preciso narrativa, clima e ambientação para causar arrepio.

A literatura pode criar, por meio de palavras, uma série de associações entre o que está ocorrendo fisicamente com outras ideias. Por exemplo, um narrador pode falar que o olhar de alguém remete a “folhas mortas pousadas na água”, ou que ouviu um barulho como o de mil besouros voando na noite. Coisas assim, mas melhores, claro, inventei isso para exemplificar. O texto pode explorar outros sentidos que não a imagem e o som. Há todo um universo de cheiros, gostos e tato que palavras podem explorar.

Do mesmo modo as palavras podem alcançar o psicológico dos personagens, nos prender às suas perturbações e aos seus sentimentos. Os livros de Stephen King fizeram tanto sucesso não pelos monstros e pelo visual, mas por causa do terror psicológico. Os monstros que habitam a mente do sujeito comum de uma pequena e típica cidade americana. É sobre o que não se vê, mais do que sobre o que se vê.

E como os quadrinhos juntam o texto e a imagem, as mesmas ferramentas usadas pela literatura vão servir para potencializar o poder de desenhos assustadores.  A presença de um narrador literário sobre a sequência de imagens deve ser feita com cuidado, para não falar o óbvio e dizer o que já é mostrado. O importante é expandir aquela imagem, criando mais camadas.

Nesse sentido, Alan Moore foi um mestre ao trazer para os quadrinhos o terror psicológico aliado à teatralidade britânica. A página a seguir é um exemplo da capacidade do quadrinho para causar arrepio e incômodo. Dando só um contexto para a cena, um monstro apareceu numa casa e matou os pais de um menino. O menino acorda em seu quarto ao escutar o barulho da briga e depois escuta somente o barulho de pés subindo a escada. O monstro está vindo.

Essa história foi relançada pela Panini, é só procurar nas livrarias pela Saga do Monstro do Pântano - Livro Um.
Essa história foi relançada pela Panini, é só procurar nas livrarias pela Saga do Monstro do Pântano – Livro Um.

O texto é usado para ativar nossa audição e tato, ao descrever a cada momento o ambiente sonoro (“gritos”, “barulho igual ao de alguém comendo alface”, “silêncio”, “passos”) e ao nos dar a sensação do contato com o monstro (“focinho lhe pareceu pegajoso”, provavelmente de sangue). O narrador trabalha o que não é mostrado, usando a associação rápida que uma palavra gera. Nem sempre uma imagem é melhor que mil palavras.

Agora, com relação ao artifício visual, destaco a composição pouco usual dos quadros. Em vez do vários quadrados certinhos um do lado outro. Os desenhos aqui são cortados irregularmente, como se fossem arrancados do papel por uma criatura e colados na página. Isso cria um maior dinamismo, nos coloca dentro do estado perturbado do personagem e aumenta a sensação de paralisia, pois os quadros são bem estreitos.

Mas o que mais me angustia realmente é a relação que me parece haver com abuso sexual infantil. A porta do quarto se abrindo, o monstro que, contrariando as expectativas, não mata o garoto, apenas deita na cama e beija sua mão. É de arrepiar porque nós já ouvimos histórias parecidas assim, seja em noticiário, em filmes ou da boca de conhecidos. O legal do terror é justamente usar monstros peludos para falar de traumas. É o vila Sésamo macabro para adultos. Apenas adianto aqui — para você não ficar com receio de ler a história — que o monstro não abusa sexualmente de fato do garoto (só acho que o autor quis remeter a isso indiretamente).

A coluna chega ao final e você deve estar meio cansado de me ver tentando passar por sabichão por tantos parágrafos.  Mas aqui é a parte divertida! Eu mesmo provarei que estou errado. Falei que os quadrinhos não tinham potencial para causar susto. Bem, obviamente esqueci das webcomics, narrativas gráficas feitas para internet. Nelas é impossível ver o que acontece na “página” à frente, você vai rolando (ou clicando) imagem por imagem. O que permite o fator surpresa tão importante para o susto.

Além disso, as webcomics contam com efeitos digitais que dão uma nova dimensão aos quadrinhos, quando usados com moderação. Mas chega de falar, deixo vocês com uma história koreana. Não se assuste agora. Você não vai entender o texto, mas dá para acompanhar bem. Fique despreocupado. Só vá devagar, por favor, não tente rolar até o fim da página de uma vez. A história é curtinha, você vai poder ler e voltar pouco tempo depois a fazer nada em paz. É isso, clique aqui ou na imagem. E boa leitura!

Há uma versão traduzida, mas o texto é óbvio e explicativo demais.
Há uma versão traduzida para o inglês, mas o texto é óbvio e explicativo demais.
Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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