Hoje eu comprei um sampler! Depois de vários meses pesquisando em todos os sites de venda de produtos usados, eu já tinha desistido de encontrar alguém vendendo o bichinho por um preço bacana. Os únicos anúncios que eu conseguia encontrar eram já meio velhos e por isso todos já tinham sido vendidos. Mas eis que na semana passada, procurando displicentemente no Cadê (mentira, era no google mesmo), encontrei um anúncio criado há menos de um dia e vendendo exatamente o sampler que eu queria por um preço ótimo! E novinho na caixa quase sem uso! Mandei um email pro vendedor na mesma hora dizendo que eu compraria e peguei o dinheiro emprestado com meu pai, por que ainda não tinha recebido o pagamento por umas trilhas que eu fiz (mas vou pagar de volta assim que receber, pai! Juro!). Enfim, com o dinheiro em mãos, combinei de encontrar o vendedor no metrô pra fazer a troca e voilá! Um sampler novinho em folha pro estúdio! Você provavelmente deve estar se perguntando o que é um sampler, né? E mais provavelmente ainda, deve estar se perguntando por que diabos eu contei essa história inteira cheia de detalhes inúteis e tediosos. E a verdade é que as repostas estão mais interligadas do que você imagina, por que o que eu acabei de fazer com a minha vida, um sampler faz com música! Hahá! Breque dramático-estratégico!

 

dancing
“I’m all about that bass”

 

 

Um sample é um pedaço, um fragmento de alguma coisa maior, uma amostra. Tipo aquelas da Avon que sua mãe adora. Tá começando a entender a comparação com aquele trecho excepcional da minha vida que narrei pra você  ali em cima? Pois é, aquilo foi uma amostra da minha (emocionante) vida, ou um sample se você preferir! Quer dizer que eu fiz um recorte e reutilizei aqui nesse post como forma de introduzir a discussão de hoje. Esses eventos, no plano geral do meu dia de hoje tiveram um significado (de alegria, conquista, perda de uma quantidade significativa de dinheiro bem rápido); mas a partir do momento em que eu os tiro do contexto original e jogo no início do post, acontece uma ressignificação dos tais acontecimentos e eles passam a ser uma forma de ajudar você a entender o que é um sampler! Já tá começando a se ligar, né? Dá uma ouvida nesse som a partir de 16 segundos:

 

 

E aí, nada? Então escuta esse Daft Punk a partir de uns 15 segundos e vê se você nota algo familiar:

 

 

Percebeu? Em Aerodynamic, os caras do Daft Punk usaram um sample de IL Macquillage Lady do Sister Sledge (se não tiver ficado claro haha). Eles modificaram um pouco, mas o trecho tá todo lá. Então eles usaram um trecho de uma música que fala de uma senhorita bem maquiada na boate pra criar esse som retrô futurista de boate uns 20 anos depois. Que engenhosos! Agora esse próximo exemplo você só precisa ouvir 2 segundos pra reconhecer. Sério:

 

 

E também não vai precisar de mais do que 15 segundos pra reconhecer essa próxima pérola em que o MC Hammer sampleou o Rick James sem o menor pudor:

 

 

Mas perae! Ele pegou o riff mais característico de Super Freak sem mudar nada e fez uma música nova em cima? Sim, pois é. Porque? Isso ta parecendo meio errado pra você? Tipo uso indevido de propriedade intelectual alheia? Aaaaah deixa de ser careta! Que tal essa música do Kanye West então?

 

 

O cara usou samples de pelo menos 3 músicas diferentes pra criar uma nova! O coro veio de Afromerica, a bateria de It’s Your Thing e as guitarras e o break de 21st Century Schizoid Man!! E vai dizer que não ficou muito maneiro? Claro que ficou! Essa discussão se relaciona totalmente com a que tivemos no outro dia sobre inspiração, lembra? Mas nesse caso os limites dela começam a ser testados já que a matéria prima é justamente um áudio criado anteriormente. Mas pensando bem, num mundo em que qualquer som pode ser gravado e modificado infinitamente pra criar um novo, será que ainda é válido discutir a legalidade do uso de samples? Bom, é sempre válido discutir qualquer coisa né, mas presta atenção nessa música do Prodigy:

 

 

E se liga na quantidade de samples diferentes e processamentos envolvidos na produção desse beat:

 

 

Doideira, né? Nesse caso dá pra dizer que a galera do Prodigy usou todos os áudio originais praticamente como matéria prima pra criar algo totalmente novo! Todas as alterações, efeitos e a própria escolha dos samples funcionam como um processo de composição mais concreto e menos subjetivo do que o convencional, já que se está lidando com algo que realmente existe e pode ser observado e alterado. Diferente da ideia que você tem na cabeça e escreve, é a ideia que já tá escrita e pode ser moldada de acordo com a sua vontade! Com essa discussãozinha deu pra sacar mais ou menos o que é sample? E o tal do sampler? Acabamos nem falando dele né…

Mas tudo bem, porque eu queria deixar esse papo flutuando um pouco na sua cabeça pra gente fechar no próximo post mesmo! Enquanto isso fica com esse gostinho do que dá pra fazer com um sampler aí:

 

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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