Noite de domingo. Um casal se senta no sofá, frente à sua televisão, e sintonizam na HBO para assistir ao final da temporada de Game of Thrones. O seriado, que, nesta última temporada, apresentou uma série de episódios fracos, parece estar recuperando o momentum com uma série de grandes acontecimentos nas três últimas semanas; um fôlego de boas novas que recupera a esperança de muitos em relação aos rumos que a produção anda tomando, separando-se cada vez mais dos livros que lhe deram origem.

Pipoca no colo, cobertas sobre as pernas, a antecipação da conclusão da temporada. Se os episódios das duas últimas semanas foram assim tão espetaculares, por que duvidar de um final arrebatador? Um misto de apreensão e expectativa em cada mente, em cada olho vidrado na tela da televisão. Uma bela, complicada e pesada cena. Um início de conclusão — e, então, uma surpresa.

Um acontecimento chocante. Bocas se abrem. Protestos de indignação ecoam mundo afora. Corações que batem mais rápido, surpresas que logo se espalham pelas redes sociais — “eu preciso comentar isso”. É impossível ficar calado.

Espero que perdoem minha digressão — meu exemplo não é propriamente literário, apesar de tangenciar o campo de leve. Afinal, pelo menos quanto a isso, os leitores acomodados de A Song of Ice and Fire já estavam cientes e, como em muitos outros casos durante a passagem da série, aguardavam com ansiedade pela reação de seus pares que assistiam apenas ao seriado, aguardando com, quem sabe, aquele sorrisinho um tanto arrogante, de quem já tinha conhecimento de tudo o que estava prestes a acontecer. E, no entanto, esta não é a parte mais importante. É um tema, afinal, que tangencia as diversas encarnações da ficção: seja o escrito literário, seja a peça encenada, sejam as produções audiovisuais reproduzidas, filmes, seriados, afins. O caso do final da quinta temporada de Game of Thrones é apenas seu expoente recente mais debatido.

Falo, é lógico, dos spoilers.

Se eu colocasse a legenda do filme na imagem, seria um spoiler
Se eu colocasse a legenda do filme na imagem, seria um spoiler

O grito social que se levantou em protesto à surpresa alheia fomentou uma discussão interessante e diversificada. Muitos sentiam que precisavam comentar o chocante acontecimento mais recente da série, e no entanto muitos outros, que não tinham a oportunidade de acompanhar religiosamente as estreias, sentiram ofendido seu direito de aproveitar de maneira “fresca”, sem olhares e sem expectativas, o episódio algum tempo depois. Uns chamaram os outros de desrespeitosos, sem-noção; outros chamaram os uns de frescos, exagerados. E, afinal, quem está certo?

Não é uma discussão nova e, como dito, tampouco se restringe ao mundo dos seriados: e quem não se lembra, por exemplo, da expectativa ansiosa pelo lançamento do último livro de Harry Potter, quando saberíamos quais das teorias eram as verdadeiras, como seria a inevitável conclusão de mais de dez anos de história? O livro saiu no exterior, os avantajados leitores de inglês poderiam ter suas surpresas mais rápidos e, sim, poderiam revelar aos menos afortunados todos os segredos e revelações que por tanto tempo esperou. A surpresa quebrada. A expectativa murcha. Uma perspectiva com suas cores perdidas.

E, no entanto, alguns não se importam. Simplesmente, não se importam.

É lógico que há pessoas e pessoas, e é visível que há determinados gêneros de gente que reagem de forma diferente a revelações do enredo; digamos, duas posições em relação a uma história a ser contada.

Temos a posição de uma perspectiva fresca: quanto menos eu sei antes de me aventurar no mundo ficcional, melhor. Todas as experiências são frescas e novas, não há nenhuma expectativa preconcebida por informações factuais, nada que possa alterar meu julgamento original, nenhum intermediário — é uma experiência somente entre eu e o livro, entre eu e o filme, entre eu e o jogo. Puxando da semiótica, podemos dizer que talvez seja uma aspiração pela primeiridade, por uma sensação crua e pura de novidades e surpresas. Para este tipo de pessoa, o spoiler tira grande parte do apelo. O pensamento por trás é “o que vai acontecer”, uma valorização da experimentação de um enredo novo que o conhecimento prévio dos pontos essenciais da trama inevitavelmente deturpa.

Do outro lado, temos aquela pessoa que não se importa com o spoiler — aquele que, muitas vezes, pode até ativamente procurá-los. Alguém que não está lá pelas surpresas, alguém que vez ou outra, ao saber das grandes reviravoltas de um enredo, ficará mais atraído para vê-lo. O pensamento é algo como “Nossa, que reviravolta legal! Como será que o enredo trata isso? Quais serão suas causas e consequências? As reações?”; o spoiler, a reviravolta, a surpresa ou o grande clímax, torna-se um atrativo, um incentivo para que a pessoa procure ativamente o trabalho.

Às vezes, uma descoberta de algo interessante mais para a frente em uma obra que a pessoa está prestes a abandonar é o que a impulsiona a perseverar até o final. Em algum lugar do mundo, há alguém que ficou sabendo do spoiler de Game of Thrones do domingo do final de temporada e decidiu que isso era um chamariz grande o bastante para que pudesse adiantar os episódios que ainda não viu, na esperança de pegar para ver as consequências da chocante surpresa do final de temporada nos episódios vindouros.

Há aqueles que, também, não gostam tanto de spoilers, adoram as surpresas que vêm de vez em quando, mas, às vezes, são curiosos demais para aguentar esperar: querem, sim, saber o que acontece, e se deixam levar pela enxurrada. Podem se arrepender depois. Podem levar a vida adiante.

E há aqueles que são, de fato, apenas uns estraga prazeres.

Se é meramente uma questão subjetiva de determinadas posições e maneiras de se aproveitar uma história, será que há um mais certo que o outro? Não são ambos métodos igualmente válidos de se aproveitar o espetáculo? Talvez simplesmente devamos viver e deixar viver. Respeitar as sensibilidades alheias — respeitar que alguns não estão preparados para saber o que aconteceu no último livro da série, no clímax do filme, na cena extra depois dos créditos do jogo. Por outro lado, nada impede que aquele que não se importe diga “pode contar, pode contar”, na esperança de ter um incentivo a mais, um levantar de sobrancelhas e um sincero “é sério?”.

Enfim — é mais uma daquelas questões de sensibilidade, de tato, de bom senso. E, no entanto, sobram questões: por exemplo, haverá uma “data de validade” do spoiler, depois do qual já é liberada a revelação de surpresas? Posso falar da reviravolta de um filme de 1986, afinal, todo mundo já teve bastante tempo para assisti-lo, criando um fair play das olimpíadas de spoiler?

Quanto a isso, não consigo chegar a um consenso interno. Digam-me vocês.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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