Autorretrato - Vincent Van Gogh - 1889

Em minhas navegações pela internet, me deparei com um autorretrato de Vincent Van Gogh. As pinceladas sinuosas do fundo parecem um mar (ou seria um céu?) com um misto de azul, de branco, um verde, talvez um pouco de magenta também. No primeiro plano – ele. O artista, em sua plenitude, com seus cabelos ruivos, barba bigode e sobrancelhas acompanhado a coloração do cabelo. Talvez no cavanhaque possamos identificar um quê de vermelho. O olhar compenetrado e um rosto marcado a sugerir uma masculinidade que iluminador nenhum do star system de qualquer época colocaria defeito. Mesmo assim, àquela época, nosso Van Gogh não era reconhecido como artista consagrado – Nathalie Heinich talvez explique.

 

Fato é que se trata de um galã completo. Elegante em seu terno azul-verde-toque magenta, guardando um colete cinza e uma blusa branca que cobriam o corpo do artista. Um galã completo cujo movimento das pinceladas podem ainda propor um ar de frescor, quase como o de alguém que acabou de sair do banho. Tantos artistas pintaram seus retratos, tantos artistas sentiram a necessidade de se registrar no mundo.

 

Fato é que, muitos desses foram contratados para retratar reis, rainhas, princesas, príncipes, grandes acontecimentos e tudo o mais. Com o passar do tempo, a prática se espraia. As famílias das classes menos abastardas começam a se valer do serviço de pintura vez ou outra. Surge, porém, o grande invento – a câmera fotográfica. E agora? Qual seria a relevância do artista em representar o real quando surge uma máquina que o faria com precisão? Mesmo com o porém da falta de cor, a arte entra crise. Será mesmo? Talvez Walter Benjamin pudesse ter explicado que, o olhar do artista por sobre o real lhe confere um coisa que nem todos possuem – capacidade de decisão no processo de representação das questões da vida que intriguem o artista.

 

Ocorre, contudo, que a representação da vida continuou se dando através de pinturas, de fotografias e de outras formas que as artes encontraram. Para além deste fato, podemos encontrar na representação de si dos artistas talvez um processo de autoafirmação, de se representar perante o mundo, de se afirmar diante dele. E, no caso de Van Gogh, talvez até mesmo de construção de uma autoimagem enquanto artista cuja sociedade de sua época parece ter-lhe negado.

Assim que me indago, se tantas eram as questões de Vincent Van Gogh acerca da vida e de sua vida que lhe conduziram a uma série de autorretratos, quais seriam os motivos que da disseminação das chamadas “selfies” que povoam o imaginário do facebook e de outras redes sociais?

 

A popularização da câmera fotográfica talvez tenha encontrado um processo até mais lento daquele encontrado pelos televisores. A fotografia, por um longo tempo, era motivo de reunião da família, de colocar a roupa especial, para se guardar uma recordação. Parece haver aí um constante desejo de se eternizar, de registrar no mundo sua passagem, de deixar vestígios para além daqueles que as vias biológicas permitem.

 

Outro dia, em casa de minha avó, me deparei com uma fotografia dela fantasiada e, em seu verso, a inscrição dizia: “Carnaval – Rio de Janeiro/São Paulo – fevereiro/outubro” e o ano da fotografia. Fiquei intrigada com a escrita do mês de outubro, ao que minha avó explicou que o carnaval daquele ano, que ela havia passado em plena Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, somente fora possível ser registrado através de fotografia na cidade de São Paulo e no mês de outubro.

 

O retrato de minha avó, para mim conserva questões muito próximas àquelas que observo no autorretrato de Van Gogh – a necessidade de autorrepresentação; a necessidade de afirmar sua existência no mundo; a vontade de ser reconhecida em um mundo que talvez não lhe tenha sido justo o suficiente. Para além dessa evidente dificuldade e manobra de registro, com a possibilidade de compra de câmeras domésticas, ainda assim as pessoas costumavam se conter. Valorizava-se o preço do filme fotográfico e se escolhia bem as fotografias a serem batidas. Quando a câmera finalmente atinge o advento do virtual e dos aparelhos celulares, nos deparamos com uma inundação de fotografias a povoar as memórias virtuais.

 

Entrar em uma rede social é sinônimo de ter os olhos afrontados por fotografias das mais diversas situações. Diante da falta do braço do outro que lhe registre, os contemporâneos descobriram seu próprio braço como forma de se registrar, o que me parece meio atrasado, pois, lá atrás, não somente Vincent Van Gogh o fizera, mas inúmeros outros artistas. Fato é que, as selfies de Van Gogh passavam por um processo de percepção e de consciência de si, de seu corpo, de sua existência e da vida social. No caso atual, ao contrário, os selfiadores talvez o façam justamente em um processo de esvaziamento da consciência de si, de seu corpo e de sua existência no mundo. Os selfiadores em seu processo de autorrepresentação parecem revelar justamente o vazio que existe em si, diante da necessidade de construção de um perfil social virtual capaz de pipocar as curtidas e comentários em seus perfis e que, no entanto, são incapazes de conferir sentido, existência e vivência da vida real.

 

Selfie por selfie – sou mais, muito mais a de Vincent Van Gogh do que as possíveis pelos milhares de píxeis da atualidade.

 

Vivendo a Copa do Mundo

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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