Uma vez um homem estava andando pela rua e encontrou um pedaço de papel no chão. Poderia ser qualquer coisa, mas chamou sua atenção porque era colorido e tinha a fotografia de uma sala branca, totalmente vazia e com o detalhe de ter algumas telas brancas nas paredes. Aquilo não fazia sentido para ele. Ao ler o texto no papel, viu que se referia a abertura de uma exposição de arte e, ao que parece, o artista apresentaria uma sala vazia. O homem ficou chocado com o que viu e não entendeu nada do que tinha lido. O título era diferente e dizia: Cubo branco. Nada muito comum, mas aquilo deixou ele com dúvidas e questões. Como aquilo era arte? Como uma sala vazia podia ser algo que desejava indicar algo belo ou estético.

O homem ficou com aquilo na mente e preferiu sentar no primeiro bar que tinha na sua frente. Pediu uma cerveja e ficou olhando o panfleto com uma cara de susto e incredibilidade. Se perguntou: Onde estariam os Van Goghs? Os Picassos? Onde a arte foi parar que não temos mais imagens para admirar? Ele ficou se lembrando dos dias em que passava no sítio de sua avó. O que mais chocava a ele era o céu estrelado e o anoitecer, ambas imagens que remetem ao cheiro do bolo quente que a avó fazia e aos cafunés antes da hora de dormir. Sua relação com aquela imagem afetiva era igual quando viu pela primeira vez o quadro ‘Crepúsculo em Veneza’ de Monet. Tela que nunca tinha esquecido e que guardava na memória com a mesma sensação que lembrava do sítio de sua avó.

Ao voltar seu pensamento para aquela sala branca não entendia onde estaria a arte. Nada que leu ou viu naquela imagem seria arte. Nada daquilo fazia sentido em vista à potência que a arte já tinha feito até então. Tomou mais um gole da sua cerveja e percebeu que ela estava quente. Maldito garçom que lhe entregou a cerveja quente, só para complementar a confusão na sua cabeça. Levantou-se, deixou uma nota de dez reais sobre a mesa e se retirou acenando para o garçom. Indicou com um gesto que estaria sem tempo para terminar a cerva e que voltaria depois.

 

Claude Monet – Crepúsculo em Veneza, 1908.

 

Continuou caminhando com o papel na mão e percebeu um endereço logo abaixo do panfleto. Lá tinha a data e o local em que a abertura iria ocorrer. A data era do mês passado, o local era a duas quadras de onde estava. Era bem perto e pensou em dar uma passada lá para ver o que era aquilo que mudou seu dia. Ao chegar na galeria, o homem viu a sala e logo na entrada tinha um rapaz de blusa branca que o atendeu com extrema educação.

– Boa tarde. Disse o rapaz. O senhor já conhece o artista? Se quiser, posso fazer uma visita com o senhor para conversarmos sobre essa obra. O homem aceitou assustado, sem entender o que aquele rapaz franzino de blusa branca poderia trazer para ele. O homem logo contou sua Odisseia, suas questões sobre o que era aquela obra e suas experiências na casa de sua avó. Claro, sem esquecer de Monet e da cerveja quente. Muito prontamente o rapaz contou a vida do artista, seu nome na arte e em como tinha pensado aquela obra. Contou seu contexto e logo veio a pergunta do rapaz para o homem: O que é arte para o senhor? Arte… é aquilo que me faz bem.. que me faz sorrir e que me questiona.

– Sim e no caso também, complementou o rapaz. Para o senhor perceber a arte pode ser bela, mas mais simples do que qualquer coisa. Ela não tem uma definição única e temporal. Para entender melhor imagine uma folha de uma árvore. Ao sentir que deve seguir um novo caminho ela cai, toca o solo, seca e se decompõe para se unir ao chão. Nesse caminho ganha novas texturas e vive experiências que ela não viveria no alto da árvore. Ela precisou sentir o vento no ar, sentir a chuva, o solo úmido e o calor do sol para se transformar em algo novo. Sem perder a sua essência, sem perder o caráter de ser uma folha. Uma outra coisa, veja pela história do senhor por exemplo. A experiência vivida na casa de sua avó foi ativada no quadro de Monet e no cheiro do bolo que ela fazia. Experiências que remetem a você e a sua vida. A arte segue o mesmo caminho. Transitou em momentos históricos importantes, conheceu artistas, desenvolveu tecnologias, tudo sem perder a sua essência: a de questionar quem olha para ela ou a experimenta. Aqui nessa obra nós vemos o local mais tradicional para expor uma obra, só que sem a obra. Tudo branco e pronto para ser alterada por qualquer um. Por mim ou por você. A experiência do olhar é o que temos aqui, como se nós tivéssemos o poder de colocar as imagens que quisermos em cada um desses quadros brancos ou pintar as paredes da cor que temos vontade. Uma folha em branco pronta para ser o que imaginarmos.

O homem não disse mais nada. Ficou olhando e parou. Sentou no meio da sala de exposição e ficou admirado ao ver todas as possibilidades que ele podia criar naquela sala branca e vazia. Naquele momento, tudo o que ele experimentou em sua vida podia ser arte.

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

1 COMENTÁRIO

  1. O texto me lembrou uma peça chamada “Arte” com o Vladimir Brichta. É bem isso, são 4 amigos, um deles resolve comprar um quadro todo branco e colocar na parede de casa. Os amigos e a esposa acham que ele enlouqueceu e começam a discutir sobre arte, vida, relacionamentos contemporâneos… é muito legal!

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