Uma história pessoal:

Eu tinha uma coleção de livros. Alguns a chamam de “biblioteca”, mas, como eu não organizei a minha por título ou ordem lógica que não o “assim cabe mais nessa estante”, prefiro me ater ao coleção nesse caso. Era uma coleção bonita: vários livros novos, vários nem tanto, indo dos exemplares em capa dura americanos aos livros de bolso nacionais, atravessando do Joyce ao Tolkien — uma mistureba de cores e títulos, gêneros e autores para todos os gostos, organizada displicentemente em duas estantes e um guarda-roupas.

Devia ter em torno de quinhentos volumes — nunca procurei contar ou catalogar; o mero pensamento me dava preguiça. Eu me orgulhava dela: vivia rodeado de meus livros, histórias e dados para dar e vender, para passar imerso na leitura meus dias longínquos de aposentadoria. Ora, eu até podia não ler alguns deles agora, mas em breve, bem em breve (minha aposentadoria ainda deve demorar uns quarenta anos para chegar), eu os leria. Eles seriam lidos. Eu juro! Juro de pé junto. Nenhum deles passaria incólume.

Quem eu queria enganar?

Daqueles quinhentos livros, eu devia ter lido um terço. Isso porque eu ainda tinha a biblioteca do e-reader, também volumosa e também majoritariamente “a ler”. Mas, na ânsia consumista de ter com o que gastar, das capas que chamam atenção, das sinopses que despertam o interesse; dos dias vivendo rodeado por livros, descontos, coleções, queimas de estoque, leituras avulsas, acabei por acumular dúzias de exemplares que, além de não lidos, não tinham previsão nenhuma para que eu os lesse. Estavam ali, enfeitando minhas prateleiras, atraindo traças e tampando minhas paredes, mas, sempre que chegava a vez dele, um lançamento que me despertava uma ânsia de leitura mais urgente passava na frente. Uma vez, e duas, e três, e dezessete.

Aqui em casa lemos A mágica da arrumação, da “guru” da arrumação Marie Kondo, cujo fundamento é que a bagunça se forma a partir do excesso de coisas supérfluas. O livro tem, curiosamente, uma parte dedicada só a livros — não é por acaso. Vim a perceber que acumulava livros por impulso, para preencher a estante, para ter um catálogo secreto de leituras que poderia, um dia, vir a ser útil — quando eu não pudesse mais adquirir livros novos.

Pergunto-me quantas pessoas, além de mim, já tiveram essa filosofia, esse pensamento, essa ânsia regular por acumular livros. Até porque não acho difícil de entender: em eras de Submarino e Amazon, é apenas natural que vejamos promoções como imperdíveis — o pensamento de que “uma hora eu acabaria comprando isso, então por que não agora?” . Some-se isso ao status do livro como objeto cultural valioso, some-se também à procura por um lazer não tão imediato — o livro nem sempre dá aquela urgência de ser consumido no momento da compra. Some-se, por fim, a aquele velho perfil de livros que “tenho interesse em ler mas não precisa ser para agora”, o perfil perfeito para a procrstinação indeterminada.

Eu entendo o acúmulo. Mas acho que estou começando a aprender o desapego.

A mesma Marie Kondo dava a dica de pegar o livro nas mãos, sentir suas páginas, sua capa, e se perguntar: isso me traz felicidade? É o ideal para quando estamos dispostos a nos desfazer… mas não de verdade. “Ah, posso ler um dia!”; “Posso me desfazer disso, mas e se for útil para mais tarde?”

Livrei-me de dezenas de livros nesses últimos meses e não sinto falta deles.

Para falar a verdade: me mudei e deixei oitenta por cento da minha coleção na outra casa, para pegar conforme preciso. Também não senti falta deles. Mesmo sabendo que eles estão lá, a quilômetros de distância, percebi que não preciso tê-los me rodeando, o que, na verdade, agora me deixa bem mais leve.

A prática do desapego para os livros, agora que penso, não é só uma questão de utilidade pessoal: também é ética, não é? Manter o livro jamais lido e jamais aproveitado por trás de quatro paredes — livros que já lemos e não iremos reler, livros que não foram lidos e, para falar a verdade, nem serão — quando há alguém, lá fora, que pode ter aquela mesma ânsia que temos por outras coisas, precisando desse exemplar parado. Campanhas surgiram, como o “esqueça um livro”, e mesmo o shopping perto de onde moro deixou um espaço onde pessoas podem pegar um livro qualquer de graça, desde que deixem outro em troca. É, afinal, um espaço de troca de cultura e informação, a eficiência que permite que outros apreciem o que fica escondido — dar uma utilidade, enfim, para o que não usaremos.

Afinal, literatura não é para estante, mas para os olhos. Agora, enfim, entendo quem se desfaz dos livros assim que os termina de ler. Não há motivo para guardar um objeto de recordação para o qual jamais olharemos novamente. Guardo meus favoritos, evito comprar o que não verei, e aquelas dúzias que ficaram para trás, um dia, terão donos que os lerão de cabo a rabo.

Pouco a pouco, todos vamos arranjando nossos favoritos.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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