"Serenade", do grande coreógrafo George Balanchine

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Recentemente, li uma reportagem na revista Dance Gazette, da Royal Academy of Dance de Londres, intitulada: “Critics in the Spotlight”, abordando a questão de como é a formação, a preparação e a atuação dos críticos de dança no mundo. Para tal, foram entrevistados dois grandes críticos de dança: Judith Mackrell, do jornal inglês The Guardian, e Alastair Macaulay, do jornal norte-americano  The New York Times.

É  importante abordar essa questão  por  se tratar de um assunto considerado até polêmico, principalmente no que diz respeito à formação do crítico. Precisaria ele ter sido bailarino, professor ou coreógrafo para poder avaliar e julgar um espetáculo? Bastariam apenas os conhecimentos teóricos para criticar uma arte que na prática é realizada pelo movimento dos corpos?

Alastair Macaulay
Alastair Macaulay

Ambos os entrevistados defendem que não.  Alastair Macaulay afirma que nunca foi bailarino e nem nunca fez aula de dança. Judith Mackrell defende que um crítico de dança não é um bailarino ou coreógrafo frustrado e sim, um escritor que focou sua pesquisa e escrita em uma área que ele ama: olhando, lendo, conversando e investigando sobre  esse meio artístico.

Aí começa a polêmica. Como bailarina, confesso que me sentiria muito mais à vontade e confiante sendo criticada por alguém que viveu e sentiu em seu corpo a técnica da dança, com todas as suas dificuldades e desafios. Alguém que saiba que o bailarino em cena está fadado a uma série de erros que muitas vezes não são de sua culpa, como falhas na luz e no som, chão escorregadio, erros de cenografia  e que tudo isso interfere, sim, na execução da sua dança. Alguém que saiba a ansiedade que toma conta de um bailarino em noite de estreia e principalmente, alguém que tenha vivido na pele o árduo trabalho que existe por trás de uma coreografia, desde o início da montagem até a o dia da Première.

Mas, por outro lado também reconheço a importância dos anos de estudos teóricos acerca do tema, aprendendo sobre história da arte, linguagens artísticas e  conceitos estéticos,  para poder criticar a dança em todos esses âmbitos conceituais. É  muito raro achar um bailarino ou coreógrafo com esse know-how teórico, pois a maioria dedicou a vida exclusivamente à prática da dança.

Por isso se torna tão delicada essa situação. Ambas as partes, tanto a prática quanto a teórica, são fundamentais para uma completa e profunda avaliação, mas é complicado exigir que alguém possua expertise em ambas.

Judith Mackrell
Judith Mackrell

Na entrevista, os críticos foram perguntados sobre  seus métodos de preparação antes de irem assistir e avaliar uma performance. Judith Mackrell respondeu que depende da performance, pois se for uma história complexa e de compreensão complicada, ela certamente irá se informar melhor previamente. Já Alastair Macaulay gosta de ser surpreendido a cada espetáculo e defende que a verdadeira pesquisa começa depois da performance, na preparação do texto.

Sobre a hora de sua atuação, os entrevistados foram questionados se a reação do público influencia em suas críticas e  os dois  foram categóricos dizendo que não se deixam influenciar por isso. Mas que se, por exemplo, um espetáculo for ovacionado ao final, isso poderá ser apontado na escrita de seus textos.

Alastair Macaulay explica ainda que como a dança é uma arte multifacetada, inúmeros elementos precisam ser avaliados: música, design, coreografia, estrutura, técnica, drama, dentre outros. Nos seus trinta anos de atuação como crítico, ele aprendeu que é preciso ter uma mente flexível e que não é possível ter um método fixo de avaliação, pois cada obra possui suas especificidades.

Isso é que torna a dança uma arte tão difícil de ser criticada. Além de incluir todas essas categorias a serem analisadas, o que não é uma tarefa simples, a dança é criada pelo viés da subjetividade. Ela não é uma ciência exata e isso dificulta uma avaliação mais coerente e  justa, pois esta vai ser sempre permeada pela visão e pelo gosto pessoal do crítico.

"Serenade", do grande coreógrafo George Balanchine
“Serenade”, do grande coreógrafo George Balanchine

 

Portanto, o público deve sim ler todas as críticas para tomar conhecimento da opinião desses escritores estudiosos no assunto, mas ele só vai ter real compreensão de uma obra estando presente na plateia. A mágica da  dança  atinge cada espectador de uma maneira. Cada um  sai do teatro  tocado e emocionado de forma diferente. E isso é o que faz da dança uma arte tão sublime, democrática e  universal!

Para saber um pouco mais sobre esse assunto, vale a pena conferir este artigo de Daniel Tércio: “Crítica de dança: uma Crítica em processo “

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

2 COMENTÁRIOS

  1. Definitivamente um crítico de dança além de ter sido bailarino profissional é preciso ser culto sobre todos os seguimentos artísticos, conhecer muito bem a história da dança, ser um verdadeiro amante da arte de dançar e obviamente ter a coerência ética de um juiz e a sensibilidade de um poeta.

  2. Essa questão é delicada mesmo. Mutias vezes um crítico bailarino vê aspectos que podem passar longe dos olhos do crítico estudioso do assunto. Acho que um faz a crítica pelo lado da paiixao/emoção e o outro , mais distante, faz a leitura fria com os olhos da razão. todavia, nunca fico influenciado pela crítica. Aliás, só leio críticas, seja do espetáculo que for, após assistir e tirar as minhas conclusões. ABraços

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