Pois é: esse é o ano da grande polêmica. No dia primeiro desse ano, o septuagésimo primeiro desde a morte de Adolf Hitler, ao fim da Segunda Guerra Mundial, sua obra intelectual entra oficialmente em domínio público. Se antes os direitos pertenciam ao governo da Baviera, que não os cedia legalmente para qualquer exploração comercial, tal necessidade de autorização não é mais um empecilho para que em breve se veja nas livrarias do mundo todo uma das obras mais polêmicas do século XX: Mein Kampf, ou Minha luta, uma mistura de relato biográfico e panfleto ideológico escrito durante um período de prisão do ditador, antes de sua chegada ao poder, e principal cartilha nazista durante o seu governo.

Em breve? Bem, tais edições já estão saindo. Na Europa, na América ou no Brasil, onde já temos ao menos duas versões prontas para sair, Minha Luta encontra casas editoriais que o podem trabalhar de forma diferente. Se algumas planejam uma publicação seca, palavra a palavra em sua versão original para o consumo bruto, vemos por outro lado chegando ao mercado uma edição crítica, comentada, anotada, pré e posfaciada, de forma a construir um arcabouço de fundamentação e contexto por trás da obra de Hitler.

A que planeja esta edição crítica é a Geração Editorial, que defende seu posicionamento mesmo em frente a uma existente e crescente polêmica, principalmente em relação às comunidades judaicas no Brasil:

Não é possível entender a mente de Hitler sem ler seus textos. Não é possível combater completamente e honestamente suas ideias sem combatê-las na fonte — argumenta o publisher, reforçando que as ideias do livro são “racistas, violentas e abomináveis”. (FONTE)

Por outro lado, a Edipro, que recentemente planejava uma edição seca do livro, inclusive utilizando uma tradução da época, optou então por desistir da empreitada. Em nota ao PublishNews, alegam que a obra “poderia ser mal entendida pelo público leitor, tendo consequências maléficas a todos aqueles que tiveram seus direitos humanos desqualificados ou vilipendiados, além de poder reacender sentimentos de ódio ou discórdia”. Isso é algo com que concordam as comunidades judaicas, que, segundo a mesma matéria do PublishNews, movimentaram-se em direção a proibir a edição da obra com a Justiça, utilizando como embasamento a legislação que veda a apologia ao racismo, antissemitismo e nazismo.

Comunidades judaicas na Alemanha, por outro lado, vão de encontro com essa visão, ao indicar que a publicação de uma edição crítica comentada seja benéfica para a explicação do Holocausto. Como disse o líder do Conselho de Representantes dos Judeus Britânicos à BBC:

Eu ficaria nervoso sobre qualquer coisa que possa glorificar o Holocausto ou promover Hitler. Mas eu acredito que não vai ser isso. Vai ser uma versão acadêmica anotada, disponível para estudantes, acadêmicos não para promover as visões de Hitler mas para colocá-las em contexto histórico. Espero que essa edição sirva como alerta sobre o que extremismo pode alcançar, e claro, se olhamos para a Europa como um todo, a extrema-direta parece estar ganhando espaço (Fonte)

Impera a grande questão: a edição das obras de Hitler servirá como fomento ou alerta aos rumos do extremismo e de um neonazismo? Como inevitavelmente acontece, a divergência é grande. Se alguns argumentam que a exposição aos argumentos pode deturpar mentes impressionáveis, outros indicam que o acesso a esta edição pode tirar o status de certo misticismo por trás do livro proscrito, despindo-o de uma aura martírica e o expondo pelo que realmente é.

Deve-se levar em consideração, também, que o livro sempre esteve facilmente disponível na rede, com traduções amadoras ou não, para que aqueles que de fato se interessavam em um acesso mais bruto pudessem ter acesso ao ideário e biografia do ditador. Uma edição intermediada é a voz de um editor por cima do livro: um intermediário que tem o cacife e o repertório, através do convite de especialistas, das inúmeras notas e aparatos editoriais, a provocar uma reapropriação e recontextualização de um texto polêmico para que ele possa servir a um objetivo diferente do que foi inicialmente concebido: transformá-lo, de fato, de um panfleto nazista em um trabalho de entendimento sobre condições históricas que, como é sabido, resultou em uma das maiores atrocidades da história.

É o que defende o editor-executivo da Record, Carlos Andreazza, que escreve no blog da editora (que não publicará edição do livro, diga-se):

Se o acesso ao livro de Hitler é facílimo e incontornável, cabe ao editor – do ponto de vista prático – preparar uma edição crítica, comentada, anotada, com a colaboração de historiadores, filósofos e cientistas políticos, que ofereça ao leitor também e fundamentalmente a história de como aquelas ideias terríveis foram aplicadas, e isso inclusive para que tal barbárie jamais se repita. (Fonte)

Em um mundo de vozes contrastantes, no entanto, sempre haverá quem concorde e discorde; as edições que o livro terão, no entanto, é fato inevitável: a editora Centauro inclusive já comercializou a obra. Contudo, haverá ainda todo o processo livreiro a se levar em conta: quais livrarias terão a coragem (ou audácia) de expor tal volume em suas vitrines? Será o livro mais popular no e-commerce? Os compradores se acanharão dos caixas? A publicação será de fato proibida pela Justiça, com base na possibilidade de apologia antissemita?

O ano é longo, mas, em diversas partes do mundo, o livro já está aí. E, para o bem ou para o mal, o texto agora é oficialmente pertencente à toda a humanidade. Resta ver o que ela fará com ele.

Quer receber mais conteúdo? Cadastre-se no nosso Clube de Cultura
Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

1 COMENTÁRIO

DÊ SUA OPINIÃO