Confesso que os EUA não é um país que me agrada muito. Sou daquelas que prefere uma viagem para a Europa a uma visita na terra do Tio Sam. Nunca me enquadrei muito bem nessa coisa de usar milhas em vez de quilômetros, libras em vez de quilos, Fahrenheit em vez de Celsius, de todos os lugares estarem com o ar condicionado absurdamente gelado até no inverno, de ser tudo meio padronizado e pré-moldado. O que parece fácil e prático depois acaba se tornando meio monótono, mas se tem uma coisa que a galera das bandas de cá sabe fazer é entretenimento. Tem de tudo e quando se fala de parques temáticos então, não medem esforços.

Walt Disney foi quem abriu caminhos para um novo tipo de interação com o consumidor de animação e ficção, tornando a história imaginada em algo real, palpável, na qual o interlocutor passa a ser o personagem por algum tempo. Ele literalmente fez sonhos se tornarem realidade (Where dreams come true!); ou foi a imaginação? Se um filme, um livro ou uma peça que envolvem o espectador com certo distanciamento já são ótimos como objetos de catarse social, imagine um parque temático, no qual o espectador deixa o seu papel passivo, distante, e passa a ser ativo, a fazer parte.

Nada como a sensação de experimentar o mundo do seu personagem de ficção favorito, de comprovar através dos seus sentidos que aquilo é de alguma maneira real. É tão intenso que faz as pessoas passarem 90 minutos em uma fila para andarem durante 3 minutos em um brinquedo. Sim, uma experiência de 3 minutos compensa os 90 minutos parados, gerando expectativa. 90 minutos em um dia bom, porque se for alta temporada ou feriado, esse tempo pode facilmente ser dobrado. A utilização dos sentidos é poderosíssima, tanto que as ações mais lembradas das marcas são aquelas que envolvem mais de um sentido e/ou são experiências. O chamado Marketing de Experiência, afinal, em um mundo com informações em excesso só ver um anúncio já não é o suficiente para influenciar na decisão de compra do consumidor. Então que tal envolvermos o consumidor em uma experiência positiva? A Coca-Cola vive fazendo isso.

Harry Potter é um livro, que de tão bom virou filme, que de fenômeno virou parque, que de tão visitado fizeram abrir os estúdios de gravação para o público, que de tão famoso fez a J.K. Rowling a primeira pessoa no mundo a se tornar milionária sendo escritora, que de tão cheio ganhou uma expansão do parque. E se existia alguma maneira de tornar o mundo de Harry Potter mais duradouro (e rentável, quer experiência mais positiva que um parque temático?) e real aos olhos do público, a Warner e a Universal fizeram! Repare, os diretos dos filmes são da Warner Bros Studios, tanto que em Londres aquele passeio que você visita os estúdios de gravação, são da Warner. Mas em Orlando as atrações do Harry Potter estão dentro do parque da Universal Studios, que é concorrente da Warner Bros! Money, Money, Money, isso aí deve ter custado caro!

Escrevo tendo acabado de visitar o Universal Studios Florida e o Islands of Adventure, os dois parques da Universal Resort em Orlando e foi a primeira vez que fui na expansão do Harry Potter, inaugurada 8 de julho de 2014 e 4 anos depois da abertura dos brinquedos do Harry Potter. Essa nova área temática do HP foi uma sacada muito boa porque sejamos realistas, as visitações do primeiro parque devem ter reduzido bastante depois que inaugurou a parte do HP no Islands. Entendam: cada parte dos brinquedos do Harry está em um parque diferente e entre eles está o Expresso de Hogwarts (expresso mesmo, porque o passeio dura uns dois minutos). Para entrar no trem e acessar os dois parques você só precisa comprar os tickets dos dois parques! US$179,00 os dois parques podendo ir 14 dias seguidos quantas vezes quiser!

Será que o problema da Universal era apenas pessoas comprando os dois tickets ou satisfação do público e tempo de uso do parque? Eu acredito que era mais do que a simples compra do ingresso, porque o parque investiu na modernização de alguns brinquedos, inaugurando novas atrações, uma Starbucks e show de encerramento do parque – apenas no Universal. O que me leva a crer que apenas vender ingresso não era a questão, mas retê-los além do Mardi Gras.

Chega disso, vamos aos parques! Ou melhor, vamos ao The Wizarding World of Harry Potter!

No Islands of Adventure, o mais antigo, encontra-se o castelo de Hogwarts e Hogsmeade. Tem a Zonkos, com brinquedos toscos que não valem a pena serem comprados com o preço inflacionado; a Honeydukes (Dedosdemel em português) repleta de doces como sapos de chocolate (que podia ter um chocolate de qualidade melhor pelos US$10,95 que se paga) e feijãozinho de todos os sabores (Todos os sabores MESMO, meu irmão pegou cera de ouvido, pimenta, feijão, algo que era tão azedo quanto vomito e outro tão ruim, mas tão ruim que foi escovar os dentes. Mas também tinha chiclete, banana, morango, tutti frutti, limão e sabores normais); Ollivander’s – onde você pode ser o escolhido para testar a sua varinha tal e qual no filme; você ainda pode fazer uma maravilhosa refeição, muito bem servida, no Três Vassouras (Super recomendo! Melhor refeição do parque todo).

De brinquedos são apenas 3: a montanha russa Dragon Challenge, a mini montanha russa para crianças Flight of the Hippogriff (Voo do Hipogrifo) – sem loopings e quedas bruscas, parece um passeio de trenzinho com mini emoção – e o mais aguardado de todos: Harry Potter and the Forbidden Journey. Um passeio com simulador de uma partida de Quadribol, só que no meio do caminho aparecem Noberto, Aragog, a floresta proibida, dementadores… Uol! Não aconselho ir após o almoço, uma vez que tem alguns movimentos do carrinho que quase te deixam de cabeça pra baixo, mas é só quase.

 

Mas essa parte não é novidade! O novo é poder pegar o trem de Hogwarts e seguir para o Beco Diagonal. Depois de uma fila considerável, você embarca no trem vermelho e preto que vale cada minuto da espera. No lado de Hogsmeade a plataforma não tem muita coisa interessante, já que todos são bruxos tecnicamente, mas o lado do Beco Diagonal, em Londres, em uma das partes você se vê atravessando uma parede na estação de trem. Antes de atravessar a parede, tudo é exatamente igual à King’s Cross, você passa a parede e lá está: Plataforma 9 ¾, várias malas e até Edwiges (Hedwig em inglês).

As cabines possuem uma cenografia idêntica a do filme, enquanto as janelas e portas são telas de projeção que contam histórias diferentes na ida e na volta. Você vai querer pegar o trem duas vezes e ver Harry, Ron e Hermione conversando em frente a sua cabine, ou ver Hagrid fazer trapalhadas do lado de fora da janela, até os dementadores congelando sua cabine você vai querer assistir! Porque logo em seguida o Harry te salva com um Expecto Patronum. Não tem nada de mais com relação a movimentos. É um passeio feito para quem realmente gosta da série, porque vai enlouquecer de tanta imersão na fantasia, ou é pra quem só quer chegar ao outro parque.

Você desembarca em Londres e precisa buscar pela entrada do Beco Diagonal (Diagon Alley) e bem atrás da parede de blocos ele está lá com tudo que tem direito: Gemialidades Weasley (Weasleys’ Wizard Wheezes); uma loja só de animais de estimação que vende todos os bichos que aparecem na série; uma loja só de vestimentas; uma de Quadribol e até o Gringotes com um dragão no topo que cospe fogo!

O melhor desse lado é que todas as lojas são reais, nada é apenas cenário e se você se deixar perder, acha até um beco macabro que contém artigos de magia negra e produtos com a marca negra e Azkaban pra tudo quanto é lado. Só fiquei triste de ver Sirius ali = /

Porém a única atração real é “Harry Potter and the Escape from Gringotts” que é bem bacana. O modelo é parecido com o de Hogwarts, você entra em um carrinho que te leva em uma mistura de projeção e cenários, só que dessa vez você precisa escapar de Gringotes e até Lord Voldemort aparece. A única parte “mais radical” é a primeira decida do brinquedo, que bem… descubra você mesmo. O restante não tem nada que cause desconforto, mas não deixa de ser emocionante e agitado.

Cervejas amanteigadas e Sucos de Abóbora são vendidos nos dois parques. A Cerveja amanteigada, que de alcoólica não tem nada, é mais gostosa em Orlando do que em Londres, onde tem gosto de remédio. Por aqui ela é docinha e bem gostosa, mas se você não gosta muito de doce, tente dividir uma com alguém.

Cada aspecto dos parques é cuidadosamente pensado. Desde os cenários perfeitos dos lugares reproduzidos com exatidão e mínimos detalhes; passando pelo layout das embalagens dos produtos, para se parecer com exatidão aos vistos nos filmes e do som ambiente com todas as músicas do filme; até o cheiro das lojas e o vocabulário dos atendentes, que toda vez que você vai pagar em cartão de crédito diz “on the Muggle Plastic” ou “Muggle Money” quando você paga em dólar.

De modo geral, a diversão é a satisfação são garantidas! Porém, senti falta do Dobby no parque, mal se acha produtos dele. Encontrei apenas um boneco na loja da entrada principal do Islands of Adventure. E para encerrar, a melhor dica que posso dar é: para evitar filas, vá de “single rider”. Existe uma fila separada (e bem menor) para visitantes que estão sozinhos e não em grupo, ou que não se importam de irem em carrinhos separados. Porém, se você nunca foi no parque antes, vá pelo menos uma vez na fila normal, porque a ambientação é iradíssima! Principalmente em Hogwarts, que você passa pela sala do Dumbledore e vê quadros falantes.

Todas as fotos por Juliana Turano
Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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