Comissão de Frente da Grande Rio 2015 - Fabrício Negri como Rainha de Copas

“A primeira impressão é a que fica”. Sem dúvidas, essa é a máxima que tem imperado no desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. As comissões de frente são atualmente um dos momentos mais esperados deste nosso maior espetáculo a céu aberto do mundo, que é o Carnaval.

Comissão de Frente do Salgueiro- coreógrafo Hélio Bejani
Comissão de Frente do Salgueiro em 2015- coreógrafo Hélio Bejani

Criado para saudar o público, apresentar a agremiação e introduzir o enredo, esse setor que encabeça o cortejo vira muitas vezes a marca registrada de um desfile. E nenhum outro quesito passou por tantas metamorfoses nos últimos tempos quanto a comissão de frente. Tecnologia, ilusionismo, truques, fogo, gelo, levitação… tudo isso passou a ser matéria usada na elaboração das coreografias.

 

O extremo profissionalismo virou uma tendência nesse quesito, que em sua maioria é executado por bailarinos e atores. Algumas comissões se utilizam até  de mais de trinta componentes para compor sua apresentação.

E não pensem que é um trabalho fácil: os artistas precisam executar uma pantomima (não sabe o que é? Descubra aqui!) em uma boca de cena com 700 metros de extensão e sem margem para erros, sob o severo risco de perder pontos na avaliação dos quatro jurados que estão colocados em diferentes pontos da avenida. Um pequeno erro pode levar à perda de um décimo que pode resultar em um lugar abaixo na colocação final das escolas.  Então, pode-se presumir que a pressão é grande em cima da comissão e de seus coreógrafos.

Um detalhe interessante de ser contado: a origem das comissões de frente remete à segunda metade do século XIX, quando as grandes sociedades usavam um grupo a cavalo para abrir caminho para seu cortejo de carruagens enfeitadas. Porém, como constituir uma linha de equinos era algo muito dispendioso, grupos mais populares começaram a fazer uma adaptação e passaram a utilizar uma corrente humana para demarcar o espaço limitado de uma calçada a outra.  Anos e anos depois, as escolas de samba que tinham um interesse em transmitir uma mensagem de respeitabilidade e tradição, começaram a colocar nestas linhas pessoas mais velhas e bem vestidas. Já na década de 30, o regulamento do carnaval fazia referência a este quesito e essas comissões formadas por figuras notáveis imperaram até os anos 80.

A partir da década de 90 então, inovações começaram a ser estimuladas, com fantasias grandiosas, coreografias aperfeiçoadas e

Comissão de Frente da Unidos da Tijuca 2015- Coreógrafo Alex Neoral
Comissão de Frente da Unidos da Tijuca 2015- Coreógrafo Alex Neoral

grande performances.  Hoje em dia, as escolas de samba vão procurar os melhores profissionais da dança (coreógrafos de grandes companhias, bailarinos do Theatro Municipal e diretores de escolas) para a elaboração da comissão de frente.

Entraram também na cena majestosos veículos (tripés) que servem de backstage, para troca de figurinos, troca de elencos e para esconder objetos utilizados durante a apresentação.

 

Esse ano as comissões de frente deram um show na avenida. Uma mais criativa que a outra, com destaque para a do Salgueiro, de Hélio Bejani; Grande Rio, de Priscilla Mota e Rodrigo Negri; da Beija-flor, de Marcelo Misailidis; a da Unidos da Tijuca, de Alex Neoral; e a da Mocidade, de Jorge Teixeira.

 

Comissão de Frente da Mocidade 2015- Coreógrafo Jorge Teixeira
Comissão de Frente da Mocidade 2015- Coreógrafo Jorge Teixeira

Outro detalhe importante de contar é que esses coreógrafos trabalham o ano inteiro em prol do desfile. Acabou agora o carnaval e eles já estão pensando e trabalhando no enredo de 2016. Os ensaios com os bailarinos começam em torno de cinco meses antes do desfile e acontecem de madrugada, para que seja mantido o máximo de sigilo em relação ao que irá ser apresentado no grande dia. É Segredo!!!

 

Existem algumas críticas em relação a essa dimensão exagerada que as comissões tomaram, alegando-se que elas acabam funcionando de um modo independente, que são compostas por pessoas que não pertencem à comunidade e que a tradição está sumindo com elas. Mas eu não concordo de todo. Algumas passistas e rainhas de bateria nunca sequer pisaram na quadra da escola, então não podem reclamar da comissão não pertencer também à comunidade. E o Carnaval é um grande espetáculo, então por que não colocar profissionais para abri-lo? Isso abrilhanta mais o desfile, que é acompanhado e transmitido no mundo todo e ainda abre um campo de trabalho enorme para os profissionais de arte. Não vejo perda da tradição quando a inovação é acrescentada de maneira inteligente.

 

 

Tradição e inovação podem desfilar de mãos dadas pela avenida. O samba pede passagem e o que importa é a alegria que transborda na Sapucaí! Meus parabéns a todos os componentes e coreógrafos das Comissões de Frente de 2015. O público com certeza já está curioso com o que está por vir no próximo Carnaval! E eu também!

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.