De uns anos para cá eu reparei que a idade molda a pessoa, não importa como. (Talvez por que cheguei em uma idade mais redonda… talvez.) Quando somos adolescentes tendemos a nos vestir e a agir como grupo. Me lembro perfeitamente de participar de festinhas na casa de amigos e a vestir roupas que condiziam com a época e com o grupo social. Nada muito importante para me preocupar naqueles dias, mas era algo que corrói os meus olhos atualmente quando vejo fotos antigas. Mesmo com isso tudo, sempre percebi que estilo era algo que fazia parte do grupo que estava, até em tentar apresentar uma identidade única nas minhas roupas. Com os anos, percebi que nada mudou, os grupos ainda existem e as festinhas também.

Nos deixamos levar por regras que ditam a maneira como nos vestimos e como tendemos a nos apresentar. Vamos aqui pelo conceito de persona de Jung, o que seria a grosso modo, a maneira que nos identificamos em um grupo. Nada mais normal quando queremos ser de alguma maneira aceitos ou reconhecidos. Isso vai de encontro com as máscaras sociais que usamos no cotidiano: representamos algo para certo grupo e criamos um novo indivíduo para nos diferenciar de outros. Sermos vistos.

Esse tipo de reconhecimento é o maior problema no campo da arte. O artista sempre tenta criar um encaixe em determinado momento artístico para encontrar-se com pares, pessoas que pensam e querem o mesmo que ele e a sua individualidade estilística. Daí encontramos os movimentos artísticos, os manifestos, momentos em que jovens artistas discutem a sua prática para compor um sentido para quem olha, ou seja, o espectador. Com a tendência em serem artistas pedantes, temos como exemplo, os surrealistas. Esse grupo de artistas relacionava o seu processo com os estudos psicológicos, afim de criar uma estética fantástica aos olhos do espectador. Ao lermos um trecho do manifesto surreal percebemos uma escrita ávida:

“A atitude realista é fruto da mediocridade, do ódio, e da presunção rasteira. É dela que nascem os livros que insultam a inteligência”.

Uma escrita forte de André Breton para contrapor a estética Dadaísta e os movimentos que reforçavam a natureza como representação da arte. O inusitado é que o Dadaísmo e o Surrealismo brigavam para propor qual arte era a que tinha mais estilo, mais verdade e sentido com as preocupações sociais, psicológicas e tecnológicas da época. Quem estava certo? Nesse caso os dois.

 

landscape-with-butterflies

Paisagem com borboletas, Dalí (1956)

 

Ambos movimentos se embebedaram do cinema, a grande tecnologia da época e que ganhava muitos críticos. Man Ray, Artaud e Buñuel foram alguns dos responsáveis por mostrar que o cinema podia ser algo além da imagem. Algo que trazia fundamentos estilísticos e que podia compor um caráter único sem repetir formulas ou parâmetros, diferente da pintura que era bastante questionada enquanto técnica artística na época. Atualmente, o cinema repete roteiros (comparando Transformers 1 e Vingadores 1, tanto com o cartaz quando o plot do roteiro.) e abusa do 3D para capturar a atenção do espectador. Nada mais batido e com pouca significância à real potência que o cinema pode chegar. Nisso, ter peito para compor um estilo único e criar um caminho estético é difícil nesses dias. Temos que ter peito como o próprio Pablo Picasso já falou anteriormente:

”Estilo é uma coisa que nasce quando a pessoa morre. Não seja estilista de si mesmo, varie na sua criação.”

E é nessa variação que encontramos a dificuldade em gerar algo novo. Assim, volto alguns anos quando eu estava no meio da faculdade e fui apresentado à Wes Anderson. Ele, muito modesto, chegou sem querer na minha casa em um DVD emprestado com o título “A vida marinha com Steve Zissou”. O engraçado é que o filme tinha me chamado mais a atenção por ter dois detalhes: o Bill Murray (sou muito fã) e um brasileiro recriando músicas do David Bowie em português do que qualquer coisa por trás do filme. Esse brasileiro do filme era o Seu Jorge e como curto Bowie dei uma chance ao filme. Vi o filme três vezes seguidas e fui pesquisar outros filmes do Wes Anderson. Surtei tanto a ponto de escrever um trabalho para uma matéria da faculdade sobre a filmografia dele e apresentar em sala. Na época era uma filmografia pequena e de difícil acesso. Assumo que foi bem trabalhoso encontrar o “Três é demais” e o “Pura adrenalina”, mas valeram a pena. O filme que tinha sido lançado anteriormente era “Os excêntricos Tenembauns”, fácil de achar pois tinha concorrido a melhor roteiro original no Oscar.

Assim, Wes Anderson me veio como um furacão. Me faz rir muito e me prendeu de um jeito bem como somente um artista com uma pintura pôde fazer. Logo, o estilo que vemos nos filmes de Anderson são únicos como arte. Levam o espectador a um mundo muito particular e fantástico. Com os anos, o seu trabalho foi tão bem aceito e reconhecido que ganhou algumas versões (feita por fãs) de como um filme famoso pode ser ao estilo único de Anderson.

 

 

As cores, os takes, os personagens, tudo faz parte de uma estética que auxilia a nos aprofundarmos da história criada por ele. Veja essa pintura da Batalha do Avaí de Pedro Américo.

 

Batalha do Avaí de Pedro Américo (1843-1905).

 

Mesmo que não conhecendo muito sobre o quadro, o artista ou a história, convido a olhar a obra sem qualquer ideia sobre eles. Ao olharmos temos uma narrativa, um momento marcado por uma única imagem e contexto. Américo é considerado um idealista na sua pintura por estudar as fotografias dos personagens desse momento histórico. Teve o cuidado de criar cada rosto o mais perfeito possível e não era aficionado aos cânones e modelos vivos da época, por isso, ficou guardado num capítulo da história da arte e considerado de mau gosto acadêmico em meados do século XX. Por tanto a vontade de gerar algo novo e que não faz parte da maré que muitos seguem é o caminho de um verdadeiro artista. Ambos Anderson e Américo são estilosos ao irem na contramão e criarem um movimento que é único e esquisito que nem eles. Muitos vão seguir o mesmo caminho para ganhar reconhecimento social, mas somente o tempo vai marcar isso.

 

*E tem um detalhe final, o título que você leu no início foi criado por um gerador de títulos de filmes do Wes Anderson.

Nada mais justo que ter estilo até no começo.

http://www.cbc.ca/punchline/word-chuckers/wes-anderson-movie-title-generator

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

DÊ SUA OPINIÃO