Tarsila do Amaral 1928

Em toda a história da humanidade sempre estivemos em companhia do céu. Nossos ancestrais primatas já contavam com a companhia das estrelas. Toda a mitologia grega nos permite inferir o quão distante vem o encantamento do homem para com o céu, bem como sua incessante busca de estabelecer para si um lugar na imensidão do mundo. Um lugar a partir do qual seja possível se localizar e tentar compreender o que nos cerca. Nem o ser mais solitário do mundo estará sozinho se levantar a cabeça em direção ao céu e observar a infinidade de estrelas lá firmadas. Não por acaso, tantos artistas se ocuparam da representação do céu. Não por acaso, a percepção de cada artista diverge consideravelmente. Nossa visão do mundo (talvez de mundo) se relaciona sempre com aquilo que carregamos dentro de nós, com nossas experiências prévias, com nossas expectativas, sentimentos e, talvez, nossos anseios por um entendimento da vida.

 

Há muito, se aprendeu a encontrar a resposta para “onde eu estou no mundo?” ao olhar para o céu em um movimento de se deixar guiar pelas estrelas e constelações. A era das Grandes Navegações se pautou sobremaneira em estudos desta lógica. Navegação? Mas o que a navegação teria a ver com o céu? Não seriam céu e mar lábios opostos de um beijo? Ambos constituem a linha do horizonte – paradoxo visual por excelência da vida – aquilo para o qual eu me aproximo e ao fazê-lo estou incessantemente me distancio. Em oposição à linha reta, o mar traz suas curvas, tal qual o céu nos traz através de suas nuvens e nebulosas. “A Lua” de Tarsila do Amaral mais do que representar uma lua, um céu ou uma paisagem nos coloca ali, companheiros do solitário cacto, a observar as curvas do céu, a nos lembrar que a Terra é curva, sinuosa, e não reta e dura como  muitas das linhas da geometria cuja única possibilidade de curva se dá através do duro e gelado compasso. A Lua também é sinuosa, as nuvens parecem dançar em um gingado lento, intensamente lento, como que a lembrar que a vida não tem o seu ou o meu tempo, mas o dela, o que ela quiser. Observando a todo este espetáculo, um cacto. Sim, uma planta. Ou seria uma pessoa solitária? Ou seria uma pessoa que se encantou tanto com aquela pintura divina que ao invés de se petrificar, se naturalizou, tornou-se parte da paisagem, em sintonia plena com a natureza?

 

Ali, perto da pessoa-vegetal-vivente – outra curva. Uma curva a parafrasear o desenhar das ondas do céu. A sugestão de um rio, ou de um quase rio, não o do verbo que gargalha, nem o de Janeiro, mas talvez aquele de Guimarães Rosa, cuja terceira margem está ali, para quem for corajoso o suficiente, se aventurar. Será então o cacto, aquele filho inquieto e sem coragem, aquele filho humano que tanto observara o pai em sua canoa na Terceira Margem do Rio e que diante de seu recuo covarde em tomar o lugar do pai na canoa ficou ali, na margem, “pedindo, pedindo perdão”?

 

Agora já surge uma dúvida – não seria aquele céu um mar? Ou seria um amar? Não seriam as nuvens espuma das ondas do mar? E o céu mesmo, mesmo, só aquela parte lá em cima, em cima do grande arco branco quase em outro lugar? Talvez estejam ali, céu, mar, rio e luar e eu. E eu que olhando o quadro, esqueço que é um quadro. Nem vejo mais o homem-cacto. Vejo o céu e talvez o mar. Pergunto-me se de fato são dois, ou se o céu é continuidade do mar ou se o mar é o céu tocando a terra e suas ondas uma efervescência de alegria por estar por perto – espuma do espumante de Zeus. A essa altura, nem você que lê estas linhas está mais aqui, mas divagando a partir de minhas impressões por sobre as linhas curvas da pintura, das linhas curvas da viagem que pode ser a vida. Neste ponto, já lhe repito a pergunta do caterpillar – “quem é você?” Quem é você que me lê? Quem é você que se deixou seduzir pelo quadro de Tarsila? Quem é você que já não lembra que aquelas cores são uma pintura e que já faz parte daquele cenário, não como o cacto tranquilo, mas como ser irrequieto cujos olhos estão caminhando de lá para cá? Quem é você?

 

 

E nesta infinita possibilidade de interrogações – a Lua. Lua que ri para mim e para o rio. Lua crescente que gargalha tanto que quase se forma um aro. Lua que não busca uma simetria e que, ali no céu, no meio do firmamento, resplandece de forma simples e direta sua potência. Lua que cassa os meus olhos e que faz uivar o lobisomem. Lua de fases, não de inconstância, mas de modos de reinventar-se. Lua que muda. Lua que se permite e gosta e goza a nudez. Lua que não tem medo. Lua que arrisca e risca o céu. Lua que o astronauta pisou. Lua que nos une agora – Tarsila, você, eu e Galileu.

 

O amarelo-ouro da lua está ali quase a nos dizer que a vida pode ter a cor que quisermos desde que saibamos escolher a imagem que pretendemos refletir. A brancura gelada da lua, ao receber o calor do sol e de seus raios, não precisa refletir-se prata. A lua pode ser ouro. E esse ouro não é aquele escavado nas minas ou aquele que compramos nas joalherias. Também não é o ouro roubado pelo menino sedento de dinheiro a partir da escassez que a vida lhe deu, tampouco se trata do ouro do tolo a enganar e a ludibriar os gananciosos de coração. Esse ouro é um ouro outro. É o ouro do casal de jovens que não tendo onde ficar, ou escolhendo ali ficar, se fazem amantes sob a luz do luar. É o ouro do pai que conta ao filho os mistérios inimagináveis acerca do céu. É o ouro que decora a festa de verão ou de outra estação. É o ouro do trabalhador que na madrugada em que acorda, dirige a cabeça ao céu para buscar a força, o sentido de sua luta e a alegria de sua manhã-ainda-noite. É o ouro da criança que sozinha sonha e delira as mil fantasias que se passam no céu. É o ouro que guarda e vela aqueles que a vida levou para o céu. É o ouro do viajante solitário no ônibus, no trem ou no avião. É o ouro dos separados que buscam um ponto de união. É o ouro dos velhos que já aprenderam que o melhor da vida está em para onde eu direciono a visão. É o ouro dos perfeitos amantes que à diferença de idade sabem dizer não. É o ouro da alegria de existir e de viver e de ter a capacidade de simplesmente olhar para o céu.

 

Em julho

Caroline Alciones

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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