Haruki Murakami já escreveu, em Norwegian Wood:

Se você ler somente os livros que os outros estão lendo, você só pensará aquilo em que os outros estão pensando.

Um professor de redação, uma vez, há uns anos, sugeriu-me que lesse algum livro fora da minha área usual de interesses; algum livro que, segundo ele, eu provavelmente não gostaria. Seria importante que eu desse uma chance para esta obra, geralmente fora do meu espectro de leitura preferida, e, com toda sinceridade do mundo, tentasse aproveitá-la. Fiz isso. Não gostei lá muito do livro. Mas o exercício vale a pena.

É fácil se esquecer de toda uma gama diversa de obras dos mais variados gêneros Brasil e mundo afora quando estamos capturados em nossa zona de conforto literário. É fácil, depois de ter se achado em um gênero, seja ficção literária, alta fantasia ou romance erótico, reproduzir a leitura das mais variadas obras daquele segmento, procurando por cada variação na história, cada mundo novo desenvolvido, cada crise existencial dos protagonistas, todas colocadas sob a perspectiva de um framework que, a nós, já é familiar.

Mas devemos ficar apenas nisso? O fácil nem sempre é o mais acertado.

Mesmo dois anos depois, as palavras do meu professor ressoam em minha cabeça. Sim, hoje mais do que nunca considero importante, de vez em quando, sair da nossa zona de conforto literária para buscar algo que não exatamente estamos acostumados. O aficionado por fantasia pode dar chance a um Gabriel Garcia Márquez, o estudante de Kafka poderia encontrar-se numa obra cyberpunk, cujo domínio de fãs, quem sabe, gostaria de um erótico se os desse uma chance. Nem sempre gostarão, nem sempre gostariam, mas esse também não é o propósito único e conclusivo de tentar abarcar novos horizontes de leitura: mais do que questão de gosto ou não, conforto ou não, é também uma questão de descoberta, de descobrir o que o resto do mundo pode pensar, pode escrever e pode ler; procurando por autores de países até menos representados, por autores com um passado complexo ou obras de significados políticos variados.

 Quando você se limita a um gênero e a uma expressão, também está limitando não apenas o tipo fundamental de experiência literária o qual pode aproveitar, mas os próprios modelos de pensamentos, tão diversos, que a literatura mundial pode oferecer. E, afinal, é tudo isso: limites. Por que se impor limites? Por que não caçar um pouco fora da área de conservação? Através dessa prática, acabei me tornando, pessoalmente, um leitor um tanto eclético, e um mundo de leitores ecléticos me parece preferível a pessoas bem encaixadas em seus gêneros, esperando por mais e mais de autores já conhecidos. Não que não haja preferências, ou não possa haver; mas imagine as tão diversas formas de experiência narrativa, moldes literários, construção de significados e personagens, temas e ambientações que uma leitura eclética pode fornecer ao seu não-tão-fiel leitor.

Haruki Murakami
Mas ué, não estão todos lendo ele, agora?

Esta é também a defesa por ler o desconhecido, o pouco usual, o marginalizado. Seja na forma de clubes do livro especializados em autores menos lidos, seja em manifestos por representação, seja pela mera curiosidade de navegar uma rede social procurando em listas e mais listas obras que aticem o interesse; quantos autores e livros interessantes não nos esperam nas gôndolas principais da livraria, mas escondidos no canto da estante ou na loja de e-books! Murakami nos disse, através de seus personagens, para ultrapassar as fronteiras do que todos estão lendo para nos permitir uma liberdade fundamental de escolha: podemos ler diferente para aprendermos a pensar diferente.

 Em tempos de internet e Goodreads, jeitos de descobrir esses livros é que não faltam. É sempre tentador permanecer em uma área familiar, mas até que ponto as histórias dentro de um próprio gênero, mesmo em toda a sua variedade de possíveis subgêneros, podem apresentar diferenças tão fundamentais em seus modelos de expressão quanto, por exemplo, o romance policial e a poesia lírica?

É tudo uma questão de abrir a mente, abrir os horizontes e deixar experiências novas, que muitas vezes jamais imaginamos existir, fluir sobre nossas cabeças. Tornar-se um amálgama de tudo isso. E, sempre que pegar um livro de um gênero previamente desconhecido ou hostil, não entrar de cabeça já querendo detestar, mas dar aquela chance sincera e honesta, de uma mente limpa, para um livro novo nos conquistar de seu próprio jeito.

Muitas vezes, um jeito que nem conhecíamos.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

3 COMENTÁRIOS

  1. Eu gosto muito de ler gêneros diferentes. Na maioria das vezes, o resultado é positivo. Já me aventurei pelo erótico (não faz meu tipo), suspense (me sequestra), distopias (1984 mudou minha vida), clássicos, romances, poesias, muita fantasia… Apesar da minha estante ser relativamente pequena, é incontável a quantidade de experiências boas e ruins que tive lendo. Conheci muitos mundos diferentes que estavam ao alcance da minha mão e precisei sorteá-lo na TBR Jar para conhecê-lo. Eu sou a favor de aventurar-se no mundo dos livros. Pode ser que aquele que você mais despreza te dê a maior lição da sua vida.

  2. Tenho uma enorme dificuldade de ler qualquer coisa que não seja ficção científica. Mas me empenho em diversificar a leitura porque, enquanto leitores, devemos estar abertos à experimentação. Assim como os escritores. Se a gente ficar na nossa bolha de conforto, corremos também um grande risco de ter preconceito com outros gêneros literários por desconhecimento, por não nos empenharmos em descobrir o que os outros pensam e escrevem.

    A dica do seu professor é valiosa. Antes as pessoas pudessem receber isso e seguissem! Muitos mundos seriam descobertos, muitas ideias lidas. =)

    Abraço!

    • Plenamente! Sempre me esforço pra ler um pouco de tudo… e como trabalho em editora, às vezes acabo o fazendo mesmo sem precisar me esforçar, hehe. Mas sempre é bom dar uma olhada no que está sendo feito em todo lugar, acho essa refrescada essencial para evitar um olhar viciado sobre a literatura.

      Um abraço!

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