Tem quadrinhos que cansam a gente, os quadros não se conectam direito, a informação vem em excesso, a história inteira parece um quebra-cabeça mal montado. Tem outros em que a leitura parece deslizar, sem qualquer esforço, com cada elemento no lugar onde devia estar. É este o caso de O gosto do cloro, do francês Bastien Vivès.

O forte dessa graphic novel não é a história. Um garoto que começa a fazer natação para tratar da escoliose e acaba conhecendo e se apaixonando por uma garota não é exatamente nada muito novo. O grande poder de O gosto do cloro está na narrativa, e, mais do que isso, está no desenho dos gestos e dos corpos que a movem.

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Primeira vez que o mocinho vê a mocinha.

A grande graça das artes visuais é justamente ver alguma coisa (de preferência, interessante). Mas frequentemente os artistas ficam tão obcecados em vender uma história que esquecem que o importante é mostrá-la, e não colocar algum personagem ou um texto qualquer contando o que está acontecendo. Isso é algo que fica óbvio se trouxermos para cá o exemplo das novelas de TV, que SEMPRE trazem um personagem falando sozinho o que pretende fazer.

Uma imagem imersiva, que capte o leitor ou espectador, é muito mais poderosa e eficiente. E poucas coisas funcionam melhor nesse sentido do que o movimento do corpo humano e os gestos. Nós somos obcecados por nossos corpos, haja vista revistas de dieta, programas com apelo sexual, dicas de saúde, inúmeros esportes — afinal, o fundamental nos esportes não é basicamente ver o que o corpo humano é capaz fazer?

Fora que não é de hoje que se diz que o corpo fala. Mas em vez de dar mensagens certas, o campo dos gestos e movimentos é quase sempre ambíguo. Estamos sempre nos perguntando, afinal, se um toque de mão mais demorado é uma paquera, ou se aquele olhar vidrado na gente é sinal de paixão ou de que há uma casca de feijão no nosso dente.

Em O gosto do cloro, nós vemos basicamente o protagonista indo nadar durante alguns dias. A cada vez, ele entra no vestiário e vai para essa enorme piscina cheia de gente dos mais variados tamanhos. Há muita repetição no quadrinho, então nós podemos ver a evolução dos movimentos.

Por exemplo, na primeira vez, as cenas no vestiário são mais lentas, o garoto está reticente de começar a nadar, esfregando os olhos irritados. À medida que ele conhece a garota e ela passa a corresponder, ele aparece saindo do vestiário correndo e sempre vasculhando de cima a piscina para ver se a garota já chegou.

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Primeira vez na piscina.

 

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Indo pra piscina apaixonado.

Nas primeiras aparições da garota, são os gestos dela que seduzem o personagem e a nós, leitores. Nós não podemos ver seu rosto direito, mas são os seus movimentos perfeitos, a maneira como parece ter total controle sobre o elemento da água, a postura magnânima ao se alongar, que fazem ela se destacar em relação aos demais. Frequentemente no início da história ela vai estar acima do personagem principal. Esse acima está relacionado mais à composição, ou seja ao espaço ocupado na imagem. Quando ela estiver em pé, ele vai estar encolhido ou sentado. Quando ela estiver fora da piscina, ele vai estar dentro. Nós só vamos vê-los numa posição de maior igualdade, lado a lado, a partir do momento que eles começam a se conhecer de fato, e ela passa a ensiná-lo como nadar melhor.

A garota sai de um nível superior na composição para ficar junto ao protagonista. Começo da amizade.
A garota sai de um nível superior na composição para ficar junto ao protagonista. Começo da amizade.

 

Como os gestos são livres, e não uma gramática, a ambiguidade é inescapável. O final do livro inteiro gira em torno do que afinal os gestos da garota realmente significaram. Uma dúvida que com certeza fará o leitor dar uma segunda olhada no livro. E não vai se desapontar. Dá para olhar os corpos desenhados por Bastien Vivés por horas sem se cansar. Ele entende que uma imagem deve ser imersiva, e imerge a todos nós na água de sua piscina.

Para os que ficaram interessados, é possível ler de graça O gosto do cloro na seção de quadrinhos da Biblioteca Parque Estadual, Av. Presidente Vargas – RJ.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

1 COMENTÁRIO

  1. É incrível como o traço é bem realista mas sem deixar de ser extremamente cartunesco. Até a movimentação desengonçada do garoto é perfeita! A representação tanto do mocinho quanto da mocinha podem ser consideradas coreografias, já que o artista tá tentando imitar uma realidade que todo mundo reconhece quando vê. É como se os personagens fossem ótimos atores sendo dirigidos por um diretor genial!

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