Coisa mais triste é um povo que desvaloriza e rejeita a cultura do próprio país.
Quando, já na adolescência, tornei pública minha vontade de estudar cinema na faculdade muita gente veio falar: “Você vai estudar pra trabalhar fora, né? Nos Estados Unidos… Aqui no Brasil cinema só tem sacanagem e palavrão.”
E eu aderia a esse discurso sem argumentar muito.
Quando finalmente entrei na faculdade, descobri um mundo ainda desconhecido para a maioria dos brasileiros: o cinema nacional.
Sim, ele existe. Sim, ele é pulsante. E sim, ele tem sacanagem, tem palavrão (coisas que existem na vida também, sabiam, queridos recatados?), tem técnica, tem cor, tem poesia e adivinhem… tem brasileiros!
Conforme ia conhecendo melhor o cinema do meu país, mais eu me apaixonava pelas narrativas e pelo nosso talento cinematográfico. Aprendi e aprendo muito com os grandes mestres. Contamos histórias como nenhum outro país sabe contar.
E aí nasceu uma confusão na minha cabeça: ora, se nós temos um cinema de altíssima qualidade e beleza, por que a maioria das pessoas ainda fala que o cinema brasileiro só tem sacanagem e palavrão? O que está acontecendo nesse meio de campo entre a produção nacional e o espectador nacional?
Para responder a essa pergunta temos que olhar para diversos jogos de mercado: exibidores, distribuidores, etc, etc… Mas o que quero tentar entender aqui é o comportamento de um fator que pesa muito nessa conta: o público.
Nunca a humanidade consumiu tanto audiovisual como consome hoje, através da internet em seus mais diversos dispositivos. Então porque nos enchemos de tanto conteúdo internacional e não experimentamos olhar pra dentro, buscar as nossas histórias e a nossa cultura? Como podemos ser tão desinteressados em relação a algo que é nosso?
“Ah, Nath, mas tem melhorado tanto… veja só as bilheterias das comédias da Globo Filmes”. Sim, elas representam um passo importante na conquista do público. Mas ainda estamos longe do ideal.
E é aí que mora a falta de esperança: se até então estávamos longe do ideal, como alcançar agora, sem um ministério que esteja atento às demandas exclusivas da cultura (que tem muitos e muitos braços para além do cinema)? Como alcançar se o brasileiro desconhece e rejeita seu próprio cinema?

Hoje, olhando comentários no Facebook sobre a fusão do MinC cheguei a ler coisas do tipo “Isso mesmo! Chega de sustentar vagabundo!” / “O Brasil decente agradece”, e daí pra baixo. Fico imaginando essas pessoas admirando museus e teatros na Europa, comprando ingressos e ingressos para assistir “Batman vs. Superman”… Sabe? Muito triste.
É uma sinuca de bico, devemos admitir. Estamos encurralados e temos uma árdua luta pela frente. Mas não duvidem: vamos lutar.
Vamos lutar para que os Karims, Adirleys, Petras e Annas não passem despercebidos e não tenham sua arte negligenciada pelo governo e pelo público. Vamos lutar para que as mostras e festivais de cinema continuem existindo e se expandam para todo o país. Afinal, a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. E a gente não quer só no Sudeste. A gente quer no Brasil e em toda parte!

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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