Muito já se foi dito a respeito dos gêneros literários, e muito já se foi dito em relação ao conto. O conto, esta forma breve que tem apenas algumas páginas para nos tocar de alguma forma. O gênero que possui a difícil tarefa de mostrar a que veio desde a primeira linha, de conduzir o leitor do começo ao fim sem ter o espaço de manobra, disponível ao seu irmão mais gordo, para poder relaxar entre um parágrafo e outro. Nem pensar — o conto deve ser parcimonioso em suas letras para que possa adquirir, em um espaço curto e em tempo breve, o efeito, a história, tudo a que se destina, seu propósito de criação.

Ou não! Temos contos de quarenta, quiçá cinquenta páginas e, apesar de parecer um gênero diferente, talvez ainda possamos enquadrá-los como contos. Veja, por exemplo, a vencedora do Nobel de 2013, Alice Munro. Seus livros são compostos de contos de que a “leitura em uma assentada” proposta por Cortázar se diria impossível, a não ser em um, quem sabe, engarrafamento em plena hora do rush do Rio de Janeiro; aí tudo bem. Talvez não possamos falar em regras, mas quem sabe pontos de vista diferentes em relação à forma breve (ou não tão breve), do núcleo dramático único, do gênero que compõe estas tão variadas coletâneas e antologias que se vê, por aí, mundo afora, Brasil adentro.

Mas como entender, classificar e abordar este gênero meio maleável, composto de limites mas cujos limites não bem se definem? Alguns autores, contemporâneos ou não, já se entregaram à tarefa, se desde Edgar Allan Poe — conhecido, sim, por seus contos e seus poemas — até Julio Cortázar, talvez considerado um dos maiores contistas latino-americanos. E tentaram em textos, escritos, críticas e na prática da própria forma, estipular uma regra — um ponto de vista — para o que, como, como fazer, contos. E este último resolve abordar a questão do ponto através da imagem e da analogia, e o comparativo com o que chama do “gênero muito mais popular” do romance, não de todo uma mentira na época, ou agora, ou na Argentina e no Brasil. Segundo ele:

O romance e o conto se deixam comparar analogicamente com o cinema e a fotografia, na medida em que um filme é em princípio uma “ordem aberta”, romanesca, enquanto uma fotografia bem realizada pressupõe uma justa limitação prévia, imposta em parte pelo reduzido campo que a câmara abrange e pela forma com que o fotógrafo utiliza esteticamente essa limitação.¹
Julio Cortázar
Julio Cortázar

Ora, tanto para Poe quanto para Cortázar o limite prévio e a intenção estética são os compostos principais necessários para que se escreva um bom conto. Assim como o romance tem um espaço, digamos, quase ilimitado para a elaboração de seu núcleo narrativo, do desenvolvimento de seus temas e desenvolvimento de personagens, o conto parte tanto de um limite e de um efeito: o seu tamanho físico — já que, acima de certo tamanho, algumas pessoas começam a considerá-lo uma novela — e um efeito bem definido que dê razão ao conto de ser. “O contista sabe que não pode proceder acumulativamente, que não tem o tempo por aliado”. E, assim, seu efeito, seu tema, seu recorte de uma situação deve servir, como na fotografia, para deixar por trás das letras uma imagem de algo maior; assim como na foto podemos imaginar ou inferir significativamente o espaço fora de campo, aquilo a mais que foi deixado de fora por suas limitações.

Em seu texto “Alguns aspectos do conto” do livro Valise de cronópio, Cortázar trata dos aspectos de seus contos, seus pontos de vista (mais do que regras) da elaboração de uma forma breve excepcional, a partir de seus temas e limites e, no geral, faz uma boa anatomia do ideal de um conto seu. Mas, digamos, de mais também. E daí, dessa unificação temática e efeito bem definido, advém a regra da assentada: um conto deveria, segundo Cortázar, ter o tamanho para que possa ser lido de uma só vez, começo meio e fim em uma só tacada, para que este efeito seja entregue de uma vez já que, ao interromper-se a leitura, perderia a ambientação, o fio da meada, e toda a intenção iria por água abaixo.

Se as formas breves em seu tempo, e ainda hoje, ficam em segundo plano na ficção frente aos romances, podemos enxergar no panorama literário uma mudança se operando. As formas mais breves ficam mais populares, o que alguns atribuem a esta fragmentação da realidade derivada do advento da era da informação: nada dura muito, tudo é composto de pequenos momentos. Temos romances fragmentados, os romances compostos por contos, e até a popularização de formatos como o micro-conto (de poucos parágrafos) e o nanoconto (apenas uma frase ou um número limitado de caracteres).

E a publicação de contos vem sido, assim como já foi em certas áreas da literatura e em determinadas épocas, as portas de entradas para autores em potencial que ainda não tem, até por limitações de espaço, mostrar a que vieram em um romance. É lógico, e não poderia ser de alguma outra forma, que escritores têm seus gêneros e formatos de preferência; um bom contista pode não ser um exímio romancista e vice-versa, mas às vezes um deve começar pelo outro. Ora, quantos autores de renome não foram descobertos nas revistas de contos, desde as pulps americanas na primeira metade do século XX (que podem render um artigo à parte) que descobriram os nomes eternizados de ficção científica e fantasia; até as antologias de hoje, que podem revelar novos nomes e lançar autores, como a Paralelos?

E mesmo hoje, quem sabe procurando democratizar esta entrada através de uma leitura destacada e uma publicação sempre rotativa, temos iniciativas de revistas virtuais como a Flaubert, revista de contos que recebe o material por e-mail e está sempre rotacionando o time de autores que entrará mensalmente em sua coleção. Editoras abrem chamadas para antologias, diversos prêmios do país procuram destacar os melhores contos. Contos publicados separadamente em e-books por bagatelas como dois ou quatro reais garantem, também, uma leitura tranquila sem a necessidade da aquisição de uma coletânea ou antologia.

Mesmo não sendo, aparentemente, tão popular com os leitores quanto o romance, é visível que o conto, até pela brevidade de sua forma e o pouco tempo necessário para o investimento de leitura, vem chamando a atenção do mundo literário também como o modo para filtrar nomes relevantes. Mesmo que eles não vinguem além de um conto ou dois.

Do terror à comédia, a forma breve do conto, enfim, pode se apresentar tão versátil na escrita e na leitura quanto um romance de oitocentas páginas. Já tentou ler um hoje?

Referência

¹ CORTÁZAR, Júlio. Valise de cronópio. 2ª edição, 2006. São Paulo: Editora Perspectiva. Página 151.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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