Fábulas são histórias que normalmente são contadas para crianças e possuem uma lição de moral no final. Se não tem lição de moral, não é fábula. Lembro que quando eu era pequena tinha um livro só de fábulas. Eu adorava ele, era grande, colorido e tinha praticamente uma fábula por folha. Perdeu-se em alguma mudança infelizmente. Porém uma fábula é um ótimo instrumento para ensinar a crianças coisas importantes como: não coloque a mão no fogão ou irá se queimar; não saia na rua sozinha ou o lobo mau irá lhe pegar.

Pensando sobre fábulas, a vida real e o mundo corporativo, gostaria de contar uma história que de fato aconteceu, que tem uma lição de moral, talvez não seja bem “de moral”, mas uma lição de fato tem. Como toda fábula, o aprendizado só vem no final.

Deixando o “Era uma vez” de fora, alguns meses atrás eu comecei a trabalhar numa nova empresa e dentro dos procedimentos padrões estava a abertura de uma nova conta bancária, do tipo salário, no banco X. As contas salários sempre foram uma oportunidade para os bancos de trazerem mais clientes para a empresa e muito eficiente, porque força dezenas de pessoas a testarem o banco, a serem clientes. Quantos de vocês já não deixaram a conta da sua última empresa aberta por preguiça de fazer todo o procedimento de encerramento de conta?

Aberta a conta no banco X comecei, involuntariamente, a comparar os serviços entre o banco X e Y. Eu sou cliente do banco Y desde que tinha 17 anos e ele não se chamava banco Y: primeira conta corrente, primeiro cartão de crédito próprio, primeira experiência de ter poder de compra e o sentimento de decepção quando houve uma fusão e ele virou banco Y. Uma das vezes que entendi a influência das marcas nas nossas vidas. Depois disso tudo, me espanto até por não ter comparado os dois bancos de propósito.

A primeira experiência com o banco X foi confusa, a interface do site e do aplicativo com o cliente tem um visual sujo, não é intuitivo e faz você perder tempo. Quando aperto uma tecla errada me sinto em um jogo de tabuleiro no qual tirei o revés: “volte sete casas” ou “vá para a prisão”. O meu banco Y não é assim, ele é fácil e simples. Achei que fosse porque estava acostumada, mas o Antônio, meu sócio no TagCultural, concordou comigo numa “conversa de salada” durante um almoço.

Quando finalmente dominei o app confuso, a surpresa! Existia um investimento automático que pegava todo o meu salário e aplicava em uma conta misteriosa, com um rendimento desconhecido e o banco X me repassava mensalmente o retorno do investimento. Se eu não sei as regras do jogo, como saber se ganhei ou não? Em 8 anos de banco Y nunca me forneceram mais do que o solicitado.

Na terceira experiência, uma complicação para fazer uma transferência bancária, que por 3 vezes não foi realizada, mas por 3 vezes me cobraram a tarifa, eu desisti. Fui em busca da Matilde (nome fictício) para solicitar que meu salário fosse automaticamente transferido para a minha conta no banco Y. Matilde deu azar de por duas vezes não estar na agência quando fui lá e nem nas vezes que tentei achá-la por telefone. Matilde completou minha irritação. Só Matilde pode autorizar o meu dinheiro ir para outro banco. Usei do poder dos formulários e Matilde se viu obrigada a lidar comigo.

Como esperado de toda empresa no momento de desespero, a ponto de perder um cliente, Matilde me ligou e fez várias promessas para eu “testar” o banco mais uma vez. Pediu desculpas, forneceu alguns benefícios e se colocou a inteira disposição no nosso período de teste. Como uma gerente treinada, soube conter o incêndio. Infelizmente, o banco X já me perdeu psicologicamente e não consegue me oferecer mais do que as promessas do gerente. Matilde é uma pessoa dentro de uma organização. Ela sozinha não pode manter todos os clientes se a instituição não colabora.

Porém a história não acaba aqui, eu contei isso tudo pra falar do final. O mais sensacional dessa história está aqui: mesmo depois do acordo com Matilde, o banco não está atendendo minhas expectativas. Eu vou ter que encarar a Matilde e solicitar que de fato ela transfira meu dinheiro mensalmente para o banco Y. Porém Matilde foi uma pessoa legal e ela é bem competente para tentar reter clientes e em uma preparação imaginária para argumentar com ela, eu me peguei pensando no seguinte: “Ok Matilde, mas o banco Y patrocina o meu festival de música favorito, então eu quero que meu dinheiro vá pra lá”.

Eu podia terminar a história aqui e todos já teriam entendido a lição (de moral). Essa frase foi a validação, involuntária e inconsciente, de tudo o que eu venho estudando sobre marketing, patrocínio, cultura, sentimento do consumidor e tentando transmitir aqui, nesse espaço, e na empresa onde trabalho.

Essa história deu o start para este texto, no minuto que pensei nisso no calor da minha discussão mental e imaginária com Matilde, meu cérebro deu pause e se ateve ao insight que tinha acabado de ocorrer e, agora, escrevendo-o, eu reparo quantas vezes eu me aproximo do banco Y (meu banco) e distancio do banco X (o banco). Então sim, investir em cultura faz diferença.

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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