No último post falei sobre a ética no cotidiano e sobre algumas experiências que eu tinha passado recentemente com a ausência da mesma. Escrever o texto e relatar minhas experiências me gerou uma curiosidade, quase que buscando uma confirmação de algo que eu já achava como certo, perguntei aos meus amigos: “vocês já passaram por alguma experiência de falta de ética no setor cultural?”. A pergunta soou como piada, todos eles deram uma risadinha, como se eu estivesse fazendo um papel de ingênua, seguida por uma das seguintes frases: “sempre”, “quem nunca?”, “óbvio”, “é só o que tem”, etc. Vamos focar nas relações trabalhistas e deixar a relação com o público para um outro momento.

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A profissionalização tardia – prefiro não recorrer ao termo ausência de profissionalismo por otimismo e por acreditar que o cenário está, sim, mudando – tem consequências muito graves e entranhadas na área. Desde as administrativas, como a dependência da Lei Rouanet e déficit de profissionais especializados, até os deslizes éticos, como a ausência de contrato e as horas extras não compensadas.

Em toda relação trabalhista, os excessos podem vir dos dois lados, tanto do empregado, quanto do empregador. É comum ver a legislação trabalhista ser mais respeitada em empresas maiores (+500 funcionários) e de outros ramos, porque a fiscalização e os valores das multas são mais rigorosos, o que dificulta o desvio de conduta por parte do empregador. Já em outras empresas menores e principalmente no setor cultural, esses são facilmente percebidos, algumas vezes em forma de “favores”: “Se a fiscalização aparecer, você não fala que está trabalhando 12 horas por dia em vez de 8 horas”.

A cultura foi marginalizada por tantos anos que algumas situações passam despercebidas, não sendo reconhecidas como desvio de conduta por terem se tornado práticas comuns e rotineiras. Mas como já dizia o velho ditado “não é porque todo mundo faz que está correto”.

Vamos lembrar algumas delas:

  • Estagiário exercer função de faz tudo e não como um aprendiz de uma profissão;
  • Contratar estagiário como mão de obra barata no lugar de um especialista (alguém reparou a quantidade de estágios sendo oferecidos na crise?);
  • Colocar estagiário para fazer trabalho de rua;
  • Abrir vagas de voluntário para economizar quando se tem dinheiro para pagar os mesmos;
  • Ser responsável por uma função que não está no seu job description e nem foi previamente acordada com o objetivo de promoção, aprendizado ou transferência de setor;
  • Trabalhar sem contrato ou carteira de trabalho assinados;
  • Não ser claro com relação à política de horas extras ou contagem da mesma;
  • Mudar as regras do acordo no meio do trabalho;
  • Não permitir que o funcionário vá ao médico ou tire folgas;
  • Mudar números no relatório;
  • Colocar um funcionário para testemunhar a ação errada de outro;
  • Esporros na frente de outros funcionários;
  • Pagar o táxi dos funcionários para casa tarde da noite, mas não querer pagar do responsável pela limpeza;

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Além desses todos, também tem um que me deixa perplexa, e eu abro pra discussão se isso pode ser considerado antiético ou se é apenas um modelo de negócios.

Pode ser considerado ético o patrocínio de produtoras/projetos de forma fixa pelas empresas?

Elaboremos. Vivemos em um cenário cujas leis de incentivo à cultura são a principal fonte de patrocínio. As empresas que detêm a maior fatia da verba são visadas por todos os produtores e captadores. Aqueles com mais influência, conseguem contato e patrocínio. Com o passar do ano, estes criam uma relação com seu patrocinador e apresentam novos projetos. Os projetos e produtoras que geraram resultados positivos para as métricas da empresa, são patrocinados novamente. O que se torna um ciclo e diminui a distribuição desse recurso público para outros projetos que podem ser tão relevantes quanto. Essa diminuição é feita através das barreiras de comunicação. É simplesmente desumano e requer um esforço hercúleo tentar entrar em contato com o setor responsável pelo patrocínio de uma grande empresa (aquelas que não oferecem edital!).
Dado esse cenário, responda: a empresa está sendo ética?
Esta é a realidade das leis de incentivo.

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Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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