Uma estética difícil de definir, mas facilmente verificada. Toda vez que você está lendo um quadrinho com a estética fofura, alguém (geralmente, sua amiga ou sua mãe) vai aparecer por cima do seu ombro e dizer algo na linha “Ai, que fofo!”. E não importa se for na verdade uma HQ pornográfica, a estética fofura está aí, é incontestável.

Morango e Chocolate, de Aurelia Aurita

Desenhos bonitinhos são irresistíveis e conseguem vender quase qualquer coisa. Não só quadrinhos e filmes, mas principalmente bonecos, agendas, cadernos e todo tipo de artigo que é fabricado por um trabalhador mal pago no Sudeste Asiático e vendido pelo olho da cara em algum shopping. Crie um personagem com uma cabeça desproporcionalmente grande e olhos maiores ainda e ouça o som de dindin caindo no seu cofre.

O grande lance dessa estética é despertar o nosso lado paternal e maternal, com um visual que nos faça lembrar criancinhas. Elas também são cabeçudas e possuem olhos grandes. E por mais que você odeie crianças, aposto que não se sentiria muito à vontade de ignorar um bebê abandonado na rua, né? Ok, se tiver sendo difícil para você empatizar, então imagine um cachorrinho peludo e abandonado. Isso ativa o nosso lado protetor.

Toda estética da fofura está baseada em estimular algo instintivo, que traga reconhecimento rápido do público-alvo. E quando a obra é só isso, uma maneira superficial e manipulativa de chamar atenção, é uma merda. Porque mesmo que a gente ache fofo, lindo e tudo mais, logo vamos nos enjoar e depois esquecer, porque não houve qualquer significado com o qual se relacionar.

É como um chiclete colorido, você dá as primeiras mordidas e fica extasiado com o sabor, mas logo em seguida ele está insosso e só resta uma gosma cinza para cuspir.

Mas isso não quer dizer que tudo que é fofo é vazio. A estética fofura pode funcionar. No entanto ela precisa daquilo que é mais importante em qualquer coisa na vida: contraste. Não dá para tudo ser fofo. É preciso de tons para criar um diálogo na estética. Então, por exemplo, você pode colocar algo fofo em situações nada fofinhas, criando humor.

No Dr. Slump, do Akira “Dragon Ball” Toriyama, isso era feito direto. Tinha uma personagem ótima, uma menininha pouco maior que um bebê, que queria virar rebelde sem causa, fumar e infringir a lei, fracassando quase sempre. Só o contraste já me faz sorrir. E não dá para esquecer uma das personagens principais, Arale – a menina-robô obcecada por ter peito e por cocôs.

Obrigado, Japão!
Obrigado, Japão!

Outra forma de a estética fofura ter efeito é usar um personagem redondo, rechonchudo, cabeçudo e cuti-cuti, num mundo mais neutro e contido, para reforçar o deslocamento do personagem. Seria um elemento narrativo interessante. O mangá Gon faz quase isso. O Gon do título é um dinossauro megaestilizado que passa o dia arranjando briga com animais detalhadamente desenhados. Só não sei dizer se é fofo. Dá uma olhada:

Obrigado, Japão! De novo!
Obrigado, Japão! De novo!

Mas com certeza a estratégia mais bem-sucedida da estética fofura no momento é flertar com o esquisito. O tipo de desenho que faz você primeiro apertar os olhos em estranhamento para depois querer abraçar todos os personagens.

A nova onda de animações do Cartoon Network seguem bem a linha do fofo esquisito. O Hora de Aventura, um dos pivôs da renovação, mostra um garoto e um cachorro falante se aventurando por um mundo mágico povoado de princesas. Os personagens tem todo o design cabeçudo, redondo e infantil, mas não é algo que te captura de primeira. Há algo no estilo da série que te traz para conhecer os personagens primeiro, para depois amá-los. (Ok, Já deu para perceber que eu sou fã.)

Finn e Jake curtindo um ócio.
Finn e Jake curtindo um ócio.

Nos quadrinhos o melhor exemplar que eu conheço do fofo esquisito são as tiras do Liniers. Elas são meio tortuosas, as linhas são grossas, os personagens tem um ar antiquado e o teor é levemente lisérgico, com cores fortes e piadas surreais. Não é o tipo de quadrinho que a pessoa vê na rua e fica com vontade de apertar sua bochecha metafórica. Mas há uma ternura tão grande de Liniers pelos seus personagens ridículos, que é impossível discordar da qualidade de sua fofura.

Os simpáticos pinguins de Macanudo.
Os simpáticos pinguins de Macanudo.

Quando possui conteúdo, e é natural para o autor ou a autora, a fofura certamente é uma arma narrativa e tanto, até para desconstruir a fofura maligna que quer tornar o mundo uma bolha infantilizada e entorpecida de consumo. Mas, claro, nem tudo dá para ser feito com fofura. Às vezes nós queremos sujeira, emoção bruta, descontrole, negatividade, catarse. Por isso, na próxima coluna, não use roupa nova, de preferência fique com sua roupa de baixo velha e bolorenta, pois vamos chafurdar na Estética Feiura.

Não perca!

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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