Esteja sempre limpo, sempre bonito, sempre feliz, sempre ativo. Isso é o que o mundo te pede. Se você sai na rua desarrumado, de mal com a vida, cara… você tem problemas, procure tratamento! Não é exaustivo isso?

Pode ser bem libertador ligar o foda-se e sair de casa na sua roupa mais furada e confortável, e fazer o que quiser, sem culpa. A estética feiura é essa roupa furada e confortável.

Uma forma libertadora de expressão pessoal, um golpe no status quo, a estética feiura não tem a ver com fazer o leitor se sentir mal ou chocar, mas tem sim a ver com aceitação. É como se o quadrinho dissesse, “Ei, colega, não se preocupe! Não é só você que sente isso, sujeira faz parte da vida.”

Crumb fala melhor do que eu

Imagina o que significou a estética feiura para a década de 60. A época da liberdade sexual e da contestação ao American Way of Life, e nos Estados Unidos havia praticamente só duas editoras de quadrinhos, Marvel e DC, que publicavam histórias de super-herói coloridas, padronizadas e nacionalistas.

O que fazer se um autor — autora, então, nem chance — quisesse publicar algo diferente, algo sobre a vida real, subversivo como o espírito da época? Bem, só de um jeito. De forma independente.

Nasce assim o movimento underground dos quadrinhos, onde vários autores vão pipocar, desenhando sem censura, para o bem e para o mal, e tentando vender onde deixassem vender. Nunca em boas vizinhanças ou em locais de família. Um dos poluidores-mor da geração foi Robert Crumb, pai da Zap Comix, Mr. Natural, Fritz the Cat e de outras maravilhosas malcriações.

Foi lançado no Brasil pela Conrad
Lançado no Brasil pela Conrad.

O underground não nega a influência do cartum e dos quadrinhos anteriores. Os desenhos do Crumb são como se Popeye ou os personagens do Disney tivessem de ressaca de uma droga pesada, ou tivessem sido atropelados. Como não há a preocupação de ser certinho ou bonito, a estética feiura deixa o quadrinhista solto para exagerar e inovar. O que importa é ter sinceridade.

Perceber que quadrinhos podem ser feios, sujos e escrotos, e ainda ter qualidade, mudou a arte sequencial para sempre. Gêneros comerciais, e também o mundo da animação, foram influenciados pelo underground e até mesmo o absorveram  — com algumas modificações, claro. As Tartarugas Ninjas, antes de ser um sucesso com as crianças do mundo todo, foi um quadrinho alternativo de pouca tiragem, preto e branco, feio e bem violento.

Feias, mas honestas
Feias, mas honestas.

Tem alguns temas que simplesmente precisam de sujeira para serem tratados de forma devida. Bote um traço fofo para tratar de um drama sobre câncer e a coisa toda fica ridícula, ou parecendo irônica, no mínimo. Não deve haver uma maneira só de fazer arte. Artistas precisam ter liberdade para escolher qual forma combina com sua história, sem se preocupar em vender bonequinhos no final.

No Brasil nós sempre tivemos uma afinidade com a estética feiura, porque aqui todo quadrinho nacional é de certa forma underground. Mas vou citar dois artistas atualíssimos que fazem um grande trabalho enfeando páginas por aí. O primeiro é Bruno Maron, do Dinâmica de Bruto. Com uma arte expressiva, que não está nem aí pra anatomia, ele caga pra geral, usando humor ácido, besteirol e nonsense. E o seu texto, sarreando ensaios filosóficos e acadêmicos, é a cereja do bolo regurgitado.

Leia o resto desse épico aqui
Leia o resto desse épico aqui.

O segundo, com um estilo completamente diferente, é Rafael Sica. Os cartuns do Sica são mais contidos e mais contemplativos do que os do Bruno Maron. Eu o vejo como uma espécie de Liniers-bizarro, pois há algumas similaridades entre o trabalho dos dois. Ambos falam de personagens desajustados usando roupas antiquadas e compartilham o gosto por brincar com a estrutura tradicional da tirinha, criando uma atmosfera lisérgica. A diferença é que, enquanto em Liniers o clima é esperançoso e romântico, nos quadrinhos do Sica a melancolia está sempre presente, às vezes de forma opressora. É meio bad trip, mas é maravilho e inventivo.

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Mais do Sica no site dele.

É preciso cagar nas regras para inventar, e a sinceridade tem uma cara feia da qual nós costumamos fugir. Por isso a estética feiura foi, é, e será sempre importante. Beleza e feiura são relativos. É tudo uma questão de como você dispõem elementos num quadro, numa frase, num ritmo, num palco.

Isso é estética.

As coisas mais banais da vida podem nos tocar, e não somos nós que escolhemos. E como não há limite para o que pode nos tocar, não há limite para a arte, que nos toca emocional ou racionalmente.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

1 COMENTÁRIO

  1. Adorei saber dessa origem das Tartarugas Ninja!
    Ótimo texto, Társio. Brilhou em: “Não deve haver uma maneira só de fazer arte. Artistas precisam ter liberdade para escolher qual forma combina com sua história, sem se preocupar em vender bonequinhos no final.”
    (Aplausos)

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