Das pinturas rupestres ao Post-it, a necessidade de se comunicar de forma rápida e visual é intrínseca à natureza humana, seja para avisar que tem um bicho de chifre la fora que come gente, para mandar aquele email pro seu chefe ou para lembrar aquela ideia maravilhosa. Mas do que lembretes pessoais, esses recadinhos servem para tirar uma coisa da sua cabeça e colocar ela em um local visível onde você outras pessoas possam ver, debater, questionar ou também serem lembradas daquela informação. 

Aposto que os Neandertais adorariam um papelzinho para colar nas paredes, mas o papel foi inventado lá para os anos 120 antes de Cristo e essa mistura maravilha entre cola e papel só no século XX… Azar deles, sorte a nossa! Pois bem, deixando o Paleolítico para trás (antes que algum antropólogo/historiador de plantão reclame das minhas referências wikipídicas), foquemos no post-it e sobre isso tenho quero falar sobre a importância do olhar do outro.

Grande parte das boas invenções tem elementos comuns dos quais cito:

  • São frutos de um erro
  • Resolvem um problema
  • Ganham vida própria, sendo usada para fins diversos do inicialmente pensado

E assim foi com a história do Post-it. O fato de você poder colar, descolar e recolar é a grande vantagem dessa ferramenta, mas na verdade ela nasceu de um erro dos experimentos do americano Spencer Silver, ao tentar criar justamente o contrário: um adesivo super aderente e nada removível. Apesar da falha, ele intuiu que isso serviria para alguma coisa, só não sabia para o que. Durante 5 anos sua invenção esperou o problema aparecer e foi então que um amigo lhe relatou que precisava fixar um marcador de páginas em suas partituras de música. De marcador para lembretes, de lembretes para usos diversos como planejamento, desenho de negócios e arte, o Post-it certamente trilhou caminhos inimagináveis por Spencer.

Nas artes tem vários exemplos, como o coletivo Illegal Art, que usou os bilhetinhos na intervenção artística “TO DO”

12 - illegal-art-to-do

O grupo fez uma referência clara a um dos usos mais comuns desses bilhetes: lembrete de uma tarefa a realizar. Assim ainda o usamos muito, mas um elemento que quero destacar nisso é a necessidade de tirar da nossa cabeça algo que provavelmente esqueceremos e deixá-la na nossa frente. Isso gera uma outra coisa interessante, que é criar distanciamento entre nós e nossas ideias. Sabemos o quão necessário são as múltiplas visões sobre um pensamento ou assunto, o olhar do outro nos faz ver coisas que não veríamos jamais se deixássemos as ideias trancadas em nossas cabeças. Para isso corremos para um amigo, um terapeuta ou um consultor. Válido para terapia, mas válido também para testar nossas ideias.

Nas minhas recentes andanças por aí, tenho mergulhado um pouco no mundo das Startups e tive contato com a função incrível do post-it para desenvolvimento de uma ideia na criação de um quadro-situação, também chamado de Canvas. Ele é uma forma de colocar na parede um mapa, claro e direto, do planejamento de uma idéia, seja para um novo negócio ou, por que não, para um projeto cultural. Adivinha o protagonista desse quadro? Ele mesmo, o Post-it. Veja só alguns Canvas preenchidos como ficam:

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Não vou me aprofundar nas funcionalidades do Canvas, tem várias referencias na internet sobre isso e o livro Business Model Generation, que eu recomendo uma lida. Mas para resumir em 2 minutos:

Meu ponto aqui é evidenciar a importância de colocar para fora o que você pensa, um exercício que faz você repensar o que esta pensando, podendo reforçar a ideia ou abandoná-la. Bem psicanalítico mesmo e funciona. Se você tiver a oportunidade de usar esse processo vai notar quanto o que estava na sua cabeça amadurece ao escrever os posti-it`s e colá-los no quadro. É uma forma de dar fisicalidade a uma ideia e nesse processo muito coisa é repensada. E quando a criação desse mapa é coletiva, mais rico fica e maduro seu Canvas ficará.

Para mim, o gestor deveria ser a pessoa próxima mais distante de um projeto, área ou espaço gerido. A visão do todo e a introjeção do olhar do outro trazem para o dia-a-dia da gestão a condição de (pré)ver caminhos, de testar e validar situações e soluções. Claro que nunca deixaremos de ser nós mesmos e a isso estamos limitados nesse processo, mas mapa do pensamento o torna físico e apresentável a outros.

Por hoje é só…

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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