Uma breve introdução:
Alguém que conhece muito pouco sobre marketing já deve ter ouvido, em alguma roda de conversa, algo sobre os 4Ps, pode não saber quem são, o que fazem, suas funcionalidades, mas sabe que eles existem. Os famosos 4Ps são uma tradução do inglês: Product, Place, Price e Promotion. Que em português viraram: Produto, Praça, Preço e Promoção, respectivamente. Como nenhuma tradução é perfeita, e tendo em vista manter os 4Ps também em português, promoção diz respeito à comunicação e praça à distribuição do produto/marca.

Os 4Ps, ou Mix de Marketing, ou Marketing Mix, ou Composto de Marketing, foi estabelecido pelo professor de Marketing da Michigan State University, Jerome McCarthy em 1978 no seu livro Basic Marketing. De uma forma bem resumida o composto de marketing são as quatro “ferramentas” controláveis pelas empresas para impulsionar suas vendas diante das adversidades do mercado.

Entenda: shit happens! Hoje mesmo estamos vivenciando uma crise econômica no país e não podemos controlar os fatores políticos que desenvolvem esta crise ou o aumento dos impostos aplicados sobre os produtos ou matérias primas. Porém isso tudo afeta como meu produto se desenvolve no mercado e nem sempre são resultados positivos. Logo, como tentar transformar resultados negativos em positivos no meio de uma crise? Gerenciando aquilo que você pode controlar dentro da sua empresa: seu produto, onde você vende, como você comunica seu produto/marca e o preço de venda.

Porém, essa introdução toda não foi pra falar da crise. Foi pra falar de algo que vivenciei recentemente e que afeta o mercado de produtos culturais.

A distribuição de produtos culturais na atualidade.

Um dos maiores problemas da área artística é definitivamente a distribuição de seus produtos. Em algumas artes é simplesmente impossível atingir grandes públicos por limitações físicas, como a capacidade de um teatro ou o elenco não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo, e por isso se faz temporadas em diversas cidades, por exemplo. Pensando dessa maneira, pode-se falar que as artes cênicas (teatro, dança, circo, performance, etc) é uma das mais prejudicadas.
Por outro lado, a tecnologia e a fácil reprodutibilidade, sempre possibilitou que a música e o audiovisual fossem mais facilmente acessados. Principalmente depois das tão abordadas inovações digitais e da Era da Informação, outras área tiveram sua propagação facilitada como as artes plásticas e a literatura.
Considerando que um artista gostaria de ver sua arte sendo consumida pela maior quantidade de pessoas possíveis e que, no mundo globalizado no qual vivemos, esse público pode estar além do país de origem do artista. Dever-se-ia concluir então, que, na atualidade, apenas os produtos culturais que não podem ser reproduzidos de forma digital tivessem problemas em estabelecer uma boa estratégia de divulgação e acessibilidade.

Apesar de ser aparentemente lógico, não é o que acontece na realidade. Pelo contrário, ainda se trata a distribuição de produtos culturais como algo restrito a certas localidades e as vezes sem considerar o assunto tratado ou repercussão do tema.

Recentemente foi lançado o documentário de ballet intitulado A Ballerina’s Tale, que retrata a trajetória da recém promovida a primeira bailarina do American Ballet Theater, Misty Copeland. Misty é a primeira bailarina negra a atingir o nível de “principal dancer” no ABT, logo, seu feito foi de extrema importância para o mundo do ballet e é falado e repercutido no mundo todo.
Porém, apesar de Misty ser importante para todo o cenário da dança clássica mundial, o ABT ser uma importante e renomada companhia e o longa gerar curiosidade em espectadores ao redor do mundo todo, seu documentário está disponível apenas para ser exibido na Amazon e no iTunes dos EUA. Quem é de fora desse país e quer assistir o documentário, não pode. Simplesmente não pode. O produto está pronto, há canais disponíveis e há um nicho interessado em consumi-lo, porque não pensar em uma estratégia de distribuição mais abrangente?

O longa Ballet 422, que conta a história da criação de uma coreografia por Justin Peck do NYC Ballet, outra companhia com repercussão mundial, também não está acessível fora dos EUA. Acredito que quando uma linguagem de maior reprodutibilidade tem, como tema central, uma linguagem mais restrita como o ballet, os meios de distribuição desses produtos deveriam ser repensados para gerar a inclusão na linguagem além da venda do mesmo.

 

 

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Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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