Semana passada aconteceu a 23ª edição do Anima Mundi – Festival Internacional de Animação do Brasil – no Rio. O festival patrocinado pela Petrobrás, IBM e BNDES traz todos os anos diversas atividades além da exibição dos filmes como o Anima Forum, um espaço para falar da profissionalização do setor. Todos os festivais deveriam ter uma área para debater a profissão do tema. É um verdadeiro estímulo para o setor e possibilidade de networking.

Este ano tiveram Masterclasses com Bastien Dubois, Jorge Gutierrez e Kim Bjornqvist, demonstrações de técnicas, diversas palestras e mesas-redondas como: Retratos do Mercado Brasileiro de Animação, Coprodução com a França e, a que vamos falar hoje, Distribuição de Animação Independente.

Participaram da mesa: Eric Beckman (GKids), Daniel Greco (NIP), Nicolas Schmerkin (Autour de Minuit), Alê Abreu (Filmes de Papel), Marco Aurélio Marcondes (Nossa distribuidora) e Igor Prassel (Animateka International Animated Film Festival), mediados por Andrés Lieban (ABPI e ABCA).

Quase todos trouxeram discussões interessantíssimas para o debate afinal, tínhamos diretores de filmes premiados e diretores de festivais. Cada um com uma história e ponto de vista diferente.

Daniel Greco contou a história do longa-metragem “Uma história de Amor e Fúria” (2013), uma animação que fala sobre o romance de um herói imortal e tem como cenário a história do Brasil, cujo público-alvo é maiores de 14 anos. Relatou que o maior problema foi conseguir chegar até o público certo, os exibidores só disponibilizavam o filme em horários muito cedo nas salas de cinema, acreditando que por ser animação era pra criança e o horário era mais cedo e ponto. Conseguiu atingir 40 mil pessoas nos dois primeiros meses em cartaz, estando em 65 salas de cinema de 41 cidades brasileiras. Uma das estratégias para solucionar isto foi trabalhar com escolas e projetos de formação de público.

Depois de ganhar o prêmio Annecy de melhor longa-metragem, o filme ganhou projeção internacional, participando de 69 festivais ao redor do mundo e tendo exibições na Itália, França, Suíça, Coréia do Sul e outros. Também foi lançado em DVD e Blue Ray e usou outras estratégias para divulgação como a produção de um documentário (Lutas.doc) e um livro (Meus heróis não viraram estátuas).

Já Ale Abreu trouxe para debate as experiências com as animações “Garoto Cósmico” (2007) e “O Menino e o Mundo” (2013) e as consequências na distribuição e público alvo de se fazer o projeto voltado para o lado artístico, para a criação do diretor e não para o lado comercial. Afinal, um filme artístico irá se transformar em um produto de qualquer maneira e concorrerá com Blockbusters, porém uma das “verdades máximas da vida” é que se você fizer algo verdadeiro, sem pensar no comercial, o retorno vem. “O Menino e o Mundo” ficou 7 meses em cartaz no Brasil e alcançou 40 mil pessoas e teve diferencial na sua estratégia de divulgação um vídeo clipe do Emicida e a transformação da história em livro. O mesmo ganhou os festivais e o mundo, teve lançamento em cinemas de 80 países e 36 prêmios. Na França, com 7 meses em cartaz, atingiu 120 mil espectadores. Um sucesso!

O que todos os diretores demonstraram em comum é a necessidade e importâncias dos festivais para os filmes serem escoados para diversos lugares. Porém, não são apenas os filmes que encontram dificuldades, os festivais também. Igor Prassel é responsável pelo principal festival de animação da Slovenia, o Animateka e teve o discurso mais legal da mesa.

Para contextualizar, a Slovenia tem apenas 2 milhões de habitantes em todo o seu território (O estado do Rio de Janeiro tem 16 milhões e meio) e o Animateka surge da mesma maneira que muitos festivais são criados: porque não tem ninguém fazendo e a animação precisa de espaço. Além disso, surge para solucionar problemas de distribuição uma vez que os grandes distribuidores não acreditam que esse tipo de filme possa dar o retorno que eles almejam. Também tem os distribuidores que compram os filmes e não exibem, como foi o caso de Song of the Sea.

Hoje em dia o Animateka recebe em torno de 10 mil pessoas, recebe subsídio do governo da Slovenia para acontecer e atua na distribuição de alguns filmes pelo país, valorizando o lançamento dos filmes e envolvendo diretores, realizadores e as Embaixadas dos países de origem do filme. O objetivo não é apenas colocar o filme na tela, mas envolver as pessoas, formar público.

É interessante ver como a questão da distribuição não é um problema exclusivo do Brasil e como cada um encontrou maneiras de serem pulverizados em mais lugares. Além de como o conceito de sucesso é relativo e que depende muito dos seus objetivos. “Nem todo filme precisa fazer 1 bilhão de dólares para justificar sua existência” foi a frase que mais marcou de Eric Beckman da distribuidora GKIDS, deixando claro as diferenças entre os padrões de animação e storytelling da Disney, Pixar e Dreamworks e os independentes. Ele diz que toda vez que um filme é analisado para distribuição eles pensam: O que mais amamos sobre esse filme e como demonstrar isso para o público?

A conclusão é que o Anima Forum deveria estar na lista de prioridades do ano que vem de todos que se interessam por cinema e, principalmente, animação. É um ótimo local de aprendizado e troca de informações.

Porém, não poderia deixar de encerrar essa coluna falando da exceção da mesa, Marco Aurélio Marcondes, o irritante que deveria ter aprendido a lição de etiqueta: não masque chiclete durante uma apresentação. Achei que fosse óbvio que se você vai falar para um público, não quer interromper frases com seus barulhos de mastigação e frases pausadas porque o chiclete quase voou da sua boca. Ainda mais durante 2h30! Depois: a mesa redonda não é para tirar suas dúvidas pessoais, mas a do público presente e pagante. Faça seu networking depois.

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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