Nesses primeiros posts tenho tentado iluminar alguns termos comuns a área cultural como gestão cultural, produção etc. Sem relacionamento sério com o Aurélio, a gente até flerta, mas é uma busca por uma definição um pouco mais empírica. Não são ideias fechadas e sim uma foto do que eu tenho pensado sobre esses temas no momento presente, postadas como um ponto de partida para que possamos voltar e repensar esses assuntos a partir das experiências do dia a dia.

É nesse pegada que gostaria de falar sobre projeto.  “Eu tenho um projeto…” mais um jargão que virou bordão na nossa profissão (ih, rimou). Todo mundo tem um projeto. Na área cultural então, multiplique por 10. Desde que entrei na faculdade tive contato com diversos projetos culturais e considero, mais ou menos, 70 a 85 porcento deles muito ruins. Não que eu seja um balizador de projetos, mas sob minha perspectiva existem muitos projetos fracos, superficiais, inconsistentes, incoerentes com eles próprios e que são permeados por uma lógica que não me conquista ou não me diz nada. Muitos deles até conquistaram públicos e dinheiros, o senso comum do sucesso, mas não por isso foram relevantes.

Nem pense que vou passar aqui pela estrutura de um projeto cultural… Isso é ferramental e não há muito o que discutir sobre como escrever um projeto ou que itens um projeto deve conter (objetivos, justificativa, orçamento, cronograma etc). Pessoalmente não gosto muito de projetos grandes, com enormes fundamentações teóricas, mas também isso não é regra para mim, caso essa seja a identidade do projeto ou a linguagem da pessoa ou instituição que irei apresentá-lo. Poderia então falar sobre formas de apresentar a ideia de um projeto, tem coisa para explorar aí, mas acho que o mais interessante para essa primeira abordagem é falar do momento anterior a existência do projeto. Sobre criatividade, motivação e circunstância. Bom, cada assunto desses dá uma tese de doutorado, por isso vou precisar fatia-los aqui.

Vou falar como o meu processo criativo se dá, pois ele produziu para mim alguns projetos e realizações que eu considero relevantes. O que me ajudou muito foi parar de pensar em projeto. O projeto muitas vezes é confundido com processo, quando ele é um fim de um processo de criação de um produtor, gestor ou artista (mas não o encerramento deste). Confundi muito? O que eu quis dizer com fim, na verdade eu estou me referindo a abandono. Como disse Leonardo Da Vinci: uma obra nunca é acabada, mas abandonada. O mesmo acontece quando estamos fazendo um trabalho de conclusão de curso. A monografia, dissertação ou tese, são pesquisas abandonadas, pois cada autor, artigo ou publicação lida, abre um campo enorme de possibilidades e relações com o tema pesquisado, mas chega um momento em que você precisa parar. Dessa forma, um projeto cultural é um abandono, pelo menos momentâneo, de um processo de criação.

Depois que parei de pensar em projeto e resultados e me entreguei aos processos, a viagem ficou muito mais interessante. Para isso você traça uma meta, depois esquece ela e se atira a criação sem preocupação com futuro, mas com total comprometimento com o agora, com o durante. Parei de pensar em respostas e comecei a pensar em perguntas. Isso me abriu para um campo lindo de conexões e percepções, pois quando você pensa e encontra as perguntas certas, o mundo se transfigura em respostas possíveis.

Tem aí um ponto muito importante que da o tom de todo o processo, que é a motivação. Normalmente a ideia de um projeto vem de inquietações e perguntas que me instigam, que mexem com o meu desejo e vontade. E por mais doida que possa ser a minha questão, tenho certeza que existem outras pessoas com questões similares, vide Yahoo respostas. Quando o que te motiva a investigar uma questão está diretamente conectado com quem você é, existe aí uma base forte para aguentar as pressões e o trabalho duro que a criação de algo relevante exige. Pelo outro lado, se o que te motiva são somente resultados esperados e externos a ti, como fama, dinheiro, aceitação, isso torna potencialmente sua tolerância muito mais suscetível e seu projeto futuro fraco e sem vida. Não que essas motivações não possam te levar a esses mesmo resultados (financeiro, de fama etc) e que muita gente pode até se interessar pelo seu projeto, mas acho muito difícil que essa prerrogativa te leve a criar projetos que inovem enquanto linguagem. Isso é o que venho estudado sobre motivação intrínseca x motivação extrínseca.

Tem um terceiro ponto que acho muito importante, que é a relação entre ideia e circunstância. Então você começa a desenvolver uma ideia, a trabalhar uma questão e para isso você lê, escreve, desenha, conversa com algumas pessoas, arregimenta outras, faz alguns testes mas para que isso se transfigure em projeto, penso que tenha que existir aí uma conjuntura externa que é a fagulha para a realização. Quando encontramos a questão nosso olhar muda, nossa percepção muda e precisamos estar atento as circunstancias favoráveis a realização de uma ideia. O projeto tem a hora de virar projeto e você só vai perceber se estiver atento e comprometido com a questão. Sabe aquela coincidência improvável? Aquela pessoa que você precisava encontrar para o seu projeto, que nunca atendeu suas ligações ou emails, mas que vem a sentar na poltrona do seu lado no avião. Ou aquele texto que você precisava ler chega na sua mão, assim do nada. Ou ainda aquela matéria de jornal que da um estalo na sua mente e conecta suas ideias. Então, não é bem uma coincidência… Nada de mágico ou místico nisso, mas situações como essas são factuais e muito recorrentes.

Fechando o post, a meu ver, se você quer ter uma ideia para um bom projeto esqueça o projeto e fique com a ideia. Se tranque no quarto ou no escritório e trabalhe sua questão. Não faça pesquisa de mercado. Isso não vai te levar a criar nada de novo, só a reforçar o que todo mundo já sabe. Steve Jobs não fazia pesquisa e criou o conceito de computador pessoal na sua garagem. Gênio? Eu diria que alguém muito preocupado com o processo e que trabalhou horas e horas e mais horas a sua questão.

Inté!

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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