Na próxima sexta-feira, 20 de novembro, comemora-se o Dia da Consciência Negra como uma homenagem ao Zumbi dos Palmares, data na qual morreu lutando pela liberdade do seu povo no Brasil, em 1695. Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares, dedicou a sua vida lutando contra a escravatura no período do Brasil Colonial.

Aproveitarei então a data para falar sobre a dança Afro-Brasileira!

A técnica de dança afro-brasileira foi sistematizada por Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, devido à necessidade de se criar espaço para um corpo negro em cena, frente às dificuldades encontradas pelo mesmo para subir no palco do Theatro.

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Mercedes iniciou então uma fusão entre a dança realizada pelas pessoas nas ruas, seus conhecimentos de clássico e moderno, adquiridos de seus estudos com Katherine Dunham  em Nova York, e as informações recebidas sobre religiosidade durante as suas pesquisas. Como relata a pesquisadora Marianna Monteiro, “Mercedes propôs uma leitura peculiar da cultura afro-brasileira e situou a dança em novas bases. A dança afro de Mercedes Baptista configurou-se como uma prática, um estilo, um repertório de danças em ruptura com o balé clássico e completamente identificado com os novos parâmetros da dança moderna, mas tendo como referência a tradição africana tal qual se configurava no Brasil”.

Esta coluna presta então, nesta semana, uma homenagem à esta grande mulher que contribuiu de forma transformadora e definitiva para a Dança Negra Brasileira:

Mercedes Baptista

mercedes baptista 1     Ela foi iniciada no balé clássico e dança folclórica pela grande Eros Volúsia (bailarina que abrilhantou o Brasil através de suas coreografias inspiradas na cultura brasileira). Na década de 1940, ingressou na Escola de Dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e no ano de 1947 foi admitida como bailarina profissional do corpo de baile deste teatro.

Enquanto mulher, negra e artista sofreu discriminação em sua época. Ao perceber que outros negros e negras desenvolviam formas de atuação de luta contra o racismo no Brasil, uniu forças com estes grupos, criando espaços e estratégias para lutar contra o preconceito racial. Foi então que, sistematicamente, trabalhou pela reafirmação do artista negro na dança, com talento, perseverança e o uso da pesquisa enquanto instrumento/ferramenta.

Em finais da década de 1950, foi selecionada pela coreógrafa e antropóloga americana Katherine Dunham e conquistou uma bolsa de estudos em Nova York.

De volta ao Rio de Janeiro, fundou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista, grupo formado por bailarinos negros que desenvolvia pesquisas e divulgava a cultura negra e afro-brasileira, descortinando novos horizontes para a dança e introduzindo elementos afros na dança moderna brasileira. O grupo ganhou notoriedade e se apresentou na Europa e vários países da América do Sul.

Na década de 1960, Mercedes Baptista teve a oportunidade de atuar no G.R.E.S Acadêmicos do Salgueiro, elaborando coreografia para o tema “O Quilombo dos Palmares”, escolhido pela escola. As escolas de samba curvaram-se ao talento de Mercedes, pois foi ela quem idealizou as apresentações das escolas com alas coreografadas nos desfiles.

No ano de 2005 recebeu uma grande homenagem através da exposição “Mercedes Baptista: a criação da identidade negra na dança”, com curadoria de Paulo Melgaço e Jandira Lima. Como desdobramento da exposição, no ano de 2007, foi lançado o livro Mercedes Baptista: a criação da identidade negra na dança, de autoria de Paulo Melgaço da Silva Júnior, publicado pela Fundação Cultural Palmares.mercedes baptista

Em 2009, a Escola de Samba Vila Isabel, escolheu como tema o centenário do Theatro Municipal, que lhe rendeu uma merecida homenagem, por ser Mercedes Baptista, uma figura fundamental da dança nacional e referência obrigatória na história desta instituição. Mercedes faleceu no ano passado, no dia 18 de agosto.

 

Deixo aqui então a minha reverência e todo o meu respeito à memória de Mercedes Baptista, por sua graça, por sua raça e por sua luta pela dança negra brasileira!!!

Descubram mais sobre essa mulher guerreira, assistindo:

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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