Vamos combinar que não estamos na melhor fase econômica neste imenso país. Você pode até não ler os jornais, pode não querer se envolver em política, pode deixar tudo do jeitinho que está e ir vivendo sua vida numa boa, mas você acaba reparando, meio sem querer, que o preço daquele produto no mercado aumentou, que seu amigo deu a notícia que está desempregado, que a firma de fulano está fazendo cortes no pessoal e “redução de custos” tem aparecido com frequência por aí nas conversas com os amigos e na reunião da empresa. Tem aquelas crises que você, felizardo, mal repara que existe: crise? que crise? Mas essa parece estar aí, bem na cara e coração da classe média, seja ela alta ou baixa.

Como falar de crise, em um setor que sempre esteve em crise? A Cultura sempre foi o primo muito pobre das planilhas orçamentárias dos governos federal, estaduais e municipais, sempre sobreviveu e nunca teve a mais breve oportunidade de atuar nem com 10% do que tem de potencial social, educacional e transformador de um povo. Neste ano de 2015 o MinC dota de 1,15% do Orçamento Geral da União. Eu fiz as contas. O orçamento total é de R$ 2.876.676.947.442,00 e o da Cultura é de R$ 3.329.144.550,00 conforme o Anexo II da LOA 2015 (Lei Orçamentária Anual). As Leis Orçamentárias, que irão distribuir a renda do país pelas pastas, normalmente são aprovadas no final do ano anterior, mas 2015, esse ano esquisito, foi sancionada no limite da data, em 20 de abril e publicada no Diário Oficial em 22 de abril. 

O mais tragicômico é que no meio crise, como cortar verba de uma pasta que já não tem verba? Se você tem dois funcionários, um ganha 100 reais e o outro ganha 1 real e você precisa reduzir custos, você reduz do cara que tem 100 reais e não do pobre coitado que já ganha mal.

Porém, como disse, é trágico, porque voltamos aquela dependência da Lei Rouanet e da renúncia fiscal das empresas, que estão em recessão. Esses sim vão cortar a verba dos projetos incentivados. Receitas caem, imposto de renda devido despenca, quantidade de verba destinada à patrocínio reduz drasticamente.

Isso tudo é o macro, mas e o micro?

Filosoficamente, eu enxergo a crise como um ataque de pânico coletivo. Quem já teve sabe, um ataque de pânico é uma bola de neve, um feedback negativo em looping: eu sei que vai dar algo errado ou já está dando e entro em pânico porque as coisas vão ficar piores e você precisa arrumar uma forma de quebrar a lógica de pensamentos de que tudo está ruim, para se acalmar, pensar, conseguir achar uma saída e as coisas voltarem a normalidade. Na sociedade: eu vejo o mercado aumentando os preços, eu vejo amigos sendo demitidos, meu orçamento mensal já não me deixa fazer algumas coisas e por receio do que pode acontecer eu economizo tudo, reduzo custos, deixo de ir naquela festa, comprar aquele sapato, peço a cerveja mais barata, escolho a marca nova e mais barata no mercado e levo marmita pro trabalho. Menos consumo, volta lá pro macro onde as empresas estão tendo suas receitas reduzidas.

Só que você, trabalhador, ser humano atarefado, já deixou de fazer muitas coisas, e precisa de um escape social, um momento de lazer. Você precisa desestressar, afinal, tudo isso te deixa mais estressado ainda. Se normalmente as pessoas já precisam de um momento de alívio e catarse, imagina em tempos difíceis! Só que você está economizando dinheiro e recorre as opções baratas de entretenimento: reunião na casa dos amigos, Netflix, praia e todas as atividades culturais gratuitas ou quase lá. Atividades essas que agora são em menos quantidade, porque há menos patrocínio. Há uma grande chance de aumentar a quantidade de pessoas em eventos gratuitos ou com preços populares, não há como ter certeza, mas é um pensamento bem lógico… e curioso.

Foto da capa: | Tico|
Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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