Tá na hora de continuarmos nossa investigação musical sobre os famigerados tons! No último post descobrimos que saber exatamente em que tom está uma determinada música jamais vai ser tão importante quanto entender que essa mesma música está numa tonalidade diferente de outra. Lembrem-se: Comparação é dúvida, e duvidar é melhor que ter certeza!

Nesse post vamos continuar o caminho da incerteza pra jogar mais alguma luz nessa chatice de tonalidade! Talvez você já tenha ouvido alguém dizer por aí: “É que essa música é menor”. Ou aquele moço famoso, o Zezé di Camargo & Luciano, dizendo pro Caçulinha no domingo: “Ré maior por favor, Caçula”. Em música esses dois termos não tem relação alguma com duração ou tamanho; pra nossa alegria (já que a gente adora uma incerteza), eles são empregados de forma bastante subjetiva. Mas antes de dizer que o modo maior é feliz e o modo menor é triste vamos dar uma olhada nessa ilustração da Alice Duke :

landscape-nightnday

 

Agora que você já sabe tudo sobre a arte da comparação fica fácil analisar as diferenças no tom ou no mood das duas representações desse mesmo cenário, né? Também podemos concordar que não dá pra dizer com certeza que um dos dois é triste e o outro feliz? Ah, que bom!

O que eu quero, é que você use a técnica que aprendeu no post anterior pra diferenciar uma cena da outra. Pense nos termos mais específicos e vagos que você conseguir pra tentar descrever as sensações que cada cenário evoca. Quanto mais subjetivo melhor: calma; seco; perigo; diversão; derrota; são alguns exemplos pra começar. Pode pirar nos termos sem problema!

Baseando-se nos termos que pensou, você consegue decidir qual das imagens é “maior” e qual é “menor”?

Agora, depois dos olhos, é a vez dos ouvidos! Pra alegria do seu coração adolescente:

 

E sem perder muito tempo enquanto você escuta o trio ternura (e provavelmente cantarola e balança a cabeça), veja quais dos termos que você pensou anteriormente pra descrever o clima das imagens se aplica a essa música, mesmo que vagamente. Lembre-se que esse é um exercício de subjetividade e incerteza (ok, prometo que essa é a última vez que escrevo essa palavra. Nesse post).

Pensou? Então baseando-se de novo naqueles termos e na associação que acabou de fazer com eles, você diria que “MMMBop” está no modo maior ou menor?

Ótimo! Agora escuta isso:

 

E aí? Percebeu alguma diferença? Mais alguns daqueles termos vieram à tona? Algum se repetiu?

“Maior” ou “menor”, em música, significa que um determinado trecho musical utiliza um conjunto ou uma combinação bastante específica de notas em sua composição. Novamente, os detalhes técnicos são irrelevantes aqui. Você não precisa saber exatamente o que torna uma música maior, mas muito provavelmente já sacou qual das duas versões de “MMMBop” é menor, não é?

Se ainda restar alguma dúvida (o que é muito bom), olha mais um exemplo. Agora pra alegria do meu coração de 8-bits:

 

Nossa, que clichê, né? Mas os clássicos não mentem, eu digo! Próximo exemplo!

 

 

Se sentindo mais confiante agora? Maior ou menor?

Existe uma noção de que músicas em tom maior tendem a evocar felicidade e em tom menor, tristeza. A essa altura você já deve me conhecer o suficiente pra saber que não gosto nem um pouco dessas definições tão certeiras e taxativas. “Triste” e “feliz” são definições simples e abrangentes demais, na minha opinião. Você diria que essa segunda versão da música do Mario (que Mario?) é pura e simplesmente triste? Só isso?

Qualquer manifestação artística é bem mais do que simplesmente tristeza ou felicidade. Não limitamos a imagem lá em cima a esses conceitos e tampouco limitaremos a música.

Você diria que “Creep” do Radiohead é uma música feliz?

E “The Final Countdown” do Europe? É triste?

Então. E só pelas minhas perguntas marotas e capciosas você já sacou em que modo essas músicas realmente estão, né?

A verdade é que cada modo traz consigo uma série de significados e sensações particulares. Mas será que são tão particulares assim mesmo?

Proponho um exercício final pra você ganhar sua faixa preta subjetiva:

Pense na música “Hey Jude” do NX Zero, e isso vai doer mais em mim do que em você, mas responda rápido: Feliz ou Triste? Não tem espaço pra subjetividade aqui! Feliz ou triste?

Agora escuta isso:

 

E se eu fiz tudo certinho agora você deixa esse post com mais dúvidas do que quando entrou.

De nada.

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

3 COMENTÁRIOS

  1. Espetacular, André. Diria que, de modo simplista e tentando explicar a caracterização de "triste", os tons menores tendem a segurar a euforia, enquanto que os tons maiores promovem o carnaval sem lei que adoramos. Claro que só dá pra dizer isso comparando. Ótima aula!

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