Depois de alguns meses procrastinando, o e-book largado no Kobo, finalmente me dispus a ler essa semana uma das conhecidas obras do autor britânico de new weird China Miéville, The city & the city, de 2009. Aqui no Brasil, foi publicado no ano passado pela Boitempo Editorial, com a apta tradução de A cidade & a cidade, mas optei por lê-lo no original.

Um conceito intrigante: um romance policial ambientado em duas cidades-estado do leste europeu, Beszel e Ul Qoma, que, por motivos desconhecidos e esquecidos, acontecem de habitar o mesmo espaço geográfico. Cidades divididas em partes totais — locais apenas pertencentes a Beszel ou a Ul Qoma — e partes entremeadas, onde os habitantes de ambas as nações dividem as mesmas ruas e céus. A pegadinha: eles são semilegamente obrigados a ignorar completamente a outra cidade nesses casos, fingindo a inexistência da pátria estrangeira que coabita os mesmos espaços, sob o risco de cometerem o crime internacional da “brecha”, a ruptura dos limites simbólicos entre Beszel e Ul Qoma. Entre a cidade e a cidade, seus habitantes devem aprender a “desver”, “desouvir”, “dessentir” tudo o que se refere à outra nação. E, no caso dessa ruptura, uma espécie de força policial extra-governamental, também chamada de Brecha — ou Breach, no original — será a responsável por aplicar as sanções necessárias. Na prática, a pessoa desaparece.

Durante a leitura, é forte a presença da cidade — e da cidade, apropriadamente — não apenas como uma ambientação, mas como próprio personagem, ativo em sua participação na história. Quando importam as arquiteturas, os ambientes, os comportamentos e trejeitos de seus habitantes, suas zonas geográficas, culturais e simbólicas, as cidades emergem à vista como forças extra-humanas capazes de marcar o imaginário de leitor e escritor, trazendo à tona os pensamentos a respeito da própria vivência urbana.

Ambientações fortes, mundos que se tornam personagens; sua existência não é novidade. E, no entanto, quando estamos falando da cidade, seja da metrópole ou mesmo da menor, já fora do âmbito rural, há aquela identificação, aquela sensação de poderia ser aqui ou pode ser aqui, da vivência no âmbito urbano, de gêneros inteiros, livros pensados e consumidos de autores e leitores citadinos. Aglomerações de pessoas e culturas, prédios e natureza, das diferentes facetas de uma metrópole ao conhecimento intrínseco de um flaneur que passa de um lugar a outro.

Se aprendemos a desver e desouvir como os personagens do livro de Miéville, é menos por uma imposição moral e mais por escolha própria — nós, que vivemos em cidades, reais e literárias, somos, como já dizia Simmel, bombardeados por impulsos e informação, de cores a letras a sons. Faz parte da vivência urbana. Ou, por outro lado, podemos desver o que nos é inconveniente, forçando-nos a assimilar apenas uma das facetas desse cosmos em que vivemos.

Veja Tales of Two Cities, coletânea de contos sobre a vivência urbana de Nova York (e suas duas facetas para seus moradores de classes diferentes); veja O centro de nossas desatenções, ensaio e experimento do imortal da ABL Antônio Torres em seus passeios antigos pelo centro do Rio — e, nesse caso, lembremos de A alma encantadora das ruas, de João do Rio, que com tanto empenho buscou capturar a essência de se viver no Rio de outrora, na Cidade Maravilhosa.

A cidade na literatura já é assunto que deu origem a livros. Como reproduzir a Dublin de Joyce, a Los Angeles ou a Nova York de Bret Easton Ellis? Cada livro de um autor desses é uma incursão para um ponto de vista subjetivo, mas palpável da vida em uma cidade, das facetas daqueles que lá cresceram e de suas pequenas idiossincrasias; e o que há de mais em uma metrópole do que essas particularidades, essa grande mistura de vidas, aglomerações de pessoas como jamais vistas na história?

Eis a cidade: é, para muitos, a representação da vida de hoje. Não é à toa que temos a fantasia urbana, com esse foco — a fantasia, algo etéreo, irreal, místico e distante, posto em sobreposição à vida mundana da cidade, o suprassumo do cotidiano, e as formas como esse cotidiano e essa esfera mundana da vida urbana pode ser subvertida (assim como o foi em Beszel e Ul Qoma, por exemplo).

O que mais natural da literatura que reproduzir, em suas cidades, a vida como ela é? Se o autor busca empreender uma busca pela psique e pela essência, que comece, de fato, onde a vida toma parte, nesse enorme repositório coletivo de experiências e diversidade, nessa vida viva onde somos, também, partes de um todo maior. A cidade, um pequeno cosmos onde o autor, mais do que representar, cria a sua própria versão de um mundo em miniatura, desse caos organizado aonde, de alguma forma, chegamos como espécie

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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