Se em nossa última crônica me deixei inundar por uma questão que em muito me interessa – crítica institucional – nesta semana, com o findar definitivo do Carnaval e com o início definitivo do ano, recorro aos ouvidos do mundo e uma reflexão que propõe as artes visuais a partir da sonoridade que se desprende da obra.

Para tanto, nada melhor que Cildo Meireles. Ao refletir a respeito da percepção sonora que se altera no mundo após a Revolução Industrial, Schafer recorda o poema de Boudelaire “A une passante”, de forma análoga, a chama transparente no centro do labirinto de Através irrompe no meio dos passantes, da multidão de cacos e barreiras transparentes. A chama que já se entrevia por entre todas as imagens do caminho, por entre os corpos que a circundavam agora se apresenta plena e exuberante como a transeunte de Baudelaire que em meio a tantas transparências, repentinamente nos traga.

A luz toca suas diversas camadas de transparência, uma ilusão auditiva se cria: a mistura da transparência do plástico somada à iluminação da instalação parece produzir um ruído novo, diverso dos estalidos dos cacos de vidro pisoteados, diferente da respiração de espanto dos passantes. Por um instante, é possível criar a ilusão de um som diverso de todo aquele produzido até então – a crepitação do plástico com a luz, como se o plástico de fato estivesse em um lento processo de combustão por uma luz que ora parece vir de fora ora parece vir do próprio emaranhado plástico. Imaginação ou devaneios? Não importa. O som de uma chama transparente pode se dar a todos, nos recordando que em se tratando de arte, conforme os significados só dependem de quem os significa.

O transeunte pode ouvir ou não o crepitar do plástico da chama transparente no centro do labirinto de Através, como pode ouvir, ver e tecer as mais diversas interpretações daquilo que vive a partir de sua experiência. Neste sentido, adentramos o espaço da percepção que não se dá em qualquer lugar, mas em relação de recesso com o próprio corpo que se permite tomar pela experiência. Segundo Giuliano Obici, em diversos momentos, desde a mais tenra infância à vida adulta, o homem se vale da canção enquanto território seguro e tranquilo. Contudo, em Através o indivíduo cria um ruído instável, perturbador e/ou sedutor que, ao mesmo tempo em que o desloca de qualquer tranquila sensação de segurança, o lança em um mar de possibilidades de sensações e de imaginações cujo volume aumenta de acordo com o número de transeuntes.

A possibilidade de saturação da capacidade de ação do indivíduo devido ao ruído que se dá em Através parece não ocorrer, pois além da condição possível de uma viagem no labirinto sônico que qualquer paisagem sonora pode proporcionar, na obra de Cildo Meireles são os pés que escolhem pisar, sendo, portanto, os responsáveis pela confecção de parte significativa da imagem da obra. Substitui-se o aconchego da canção pelo ruído envolvente e provocador que guia os passos dos indivíduos em espécies de círculos, na verdade, quadrados concêntricos que conduzem à chama transparente. Ao contrário do que poderia supor Schafer, os ruídos de Através parecem possuir potencial criativo por aquilo que se mobiliza não somente pelo ouvido, mas a essa altura, pelo corpo como um todo que sente, vive e experimenta.

Pelo âmbito da percepção, podemos observar o quanto a sonoridade da obra a constituí. A percepção da obra se altera de acordo com o território sonoro que se constitui com menor ou maior quantidade de pessoas a participar ao mesmo tempo. Um mesmo passante, ao transitar pela obra com um grupo que não ultrapasse cinco pessoas, vivenciará a formação de um território sonoro diverso daquele que se forma em companhia de quinze ou vinte indivíduos a percorrer o labirinto. A obra de Cildo Meireles contém em si condições de visualidades que além de se desprender, se determinam a partir da maior ou da menor participação de indivíduos simultaneamente.

Esta crônica objetiva pensar que muito além de contemplativa, as artes visuais são possibilidade. Podemos depreender imagens do inimaginável. Instalações de arte são um rico campo para pisarmos e sentirmos a nós mesmos, formando nossas imagens de mundo a partir daquilo que temos dentro de nós em relação com a arte e com o mundo, portanto.

Acabou o horário de Verão

Caroline Alciones

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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