Caos de Fio

Em outro texto falei de uma metodologia para criação e gestão de projetos colaborativos, criada na Austrália e chamada de Dragon Dreaming. Meu contato com ela me levou ao Confestival, um encontro anual de treinadores e simpatizantes que estão aplicando essa ferramenta no Brasil e em outros lugares do mundo. Devo dizer que foi um evento a parte de todos o eventos que já participei. Hoje, aqui no avião, quero falar um pouco dessa vivência e de um conceito que se tornou latente aqui na caixola, o termo caórdico.

 

Depois de uma uma rápida escala pela megalópole paulistana segui para Ilhéus e do avião já pude notar a diferença clara de cores, de 50 tons de cinza para 500 tons de verde. Ilhéus é toda verde, mas ainda menos verde do local que estava realmente indo. Da pequena cidade, seguimos mais 2h a norte até um pequeno vilarejo de Itacaré e trocamos o micro ônibus por uma rural, caçamba aberta. Já saquei a câmera e comecei meus disparos. Além da rural, mais dois 4×4 seguiam em comboio por uma estrada de areia rumo à costa, cercado por uma vegetação que me parecia uma mistura de cerrado com restinga.

 

Trinta minutos mais tarde, chegamos à Comunidade Inkiri em Piracanga, uma ecovila, uma comunidade intencional sonhada e realizada por alguns que acreditam num possível novo mundo criando seu próprio e disseminando esse desejo de conexão consigo, com os outros e com a terra para os que por lá passam. Piracanga é por si só um capítulo a parte ou talvez um livro a parte, por isso não vou mergulhar nesse tópico, mas o que posso dizer é que lá há muito mais do que qualquer texto explicativo, post ou foto possa transmitir. Lá minha energia extremamente yang e fogo, encontrou equilíbrio. Após o encontro ainda fiquei mais uns dias com um único objetivo, me misturar. E assim foi.

 

Reunidos em uma Oca, iniciamos o Confestival com um cerimônia indígena. Nada mais belo do que honrar uma metodologia inspirada nos aborígenes australianos com uma celebração de nosso povo mais tradicional. Assim acendemos a chama e os trabalhos se abriram. E que trabalhos teríamos para fazer? O trabalho que decidimos fazer. Não havia programação, palestra, curso, oficina, workshop… Nada havia sido pré-definido pela organização a não ser alguns princípios como abertura, colaboração e transparência. Num texto que falei sobre ferramentas, mencionei o Open Space, um formato poderoso para emergir assuntos a partir dos interesses de cada participantes.

 

Nos lançamos no caos. E cada um escreveu num papel o tema que gostaria de abordar ou saber mais e seu nome, colocando esse papel num imenso quadro com os locais de programação e os dias e horas disponíveis. Em questão de uma hora, de forma autogestionada e sem a dualidade de comando e controle central, montamos uma programação de 3 dias extremamente rica que reunia os saberes coletivos ali presentes. De macrame à gestão de projetos, de roda de conversa sobre amor livre na sauna à workshop de bloqueio em projetos no templo. Tivemos de um tudo, foram temas extremamente diversos e ao mesmo tempo intrinsecamente conectados. A partir do caos, uma ordem emergiu e isso foi possível pela clareza de valores e princípios que nos uniu naquele tempo e naquele espaço.

 

Não por acaso, em minha mochila seguiu para essa viagem, um livro muito especial que recentemente tem ocupado meus tempos de leitura: O Nascimento da Era Caórdica de Dee Hock. Utilizando como pano de fundo a criação da Visa (sim, o cartão de credito) Dee traz conceitos altamente inovadores para a gestão de projetos e qualquer outra coisa, até da formação do cartão de crédito mais aceito no mundo todo. Me impressionei que algo que hoje criticamos tanto tenha sido criado sob conceitos tão revolucionários que infelizmente se perderam e fizeram da Visa o que ela é hoje. Se assim foi como ele escreveu, o sonho de Dee foi bonito.

 

Mas o que quero trazer do autor aqui é um conceito que ele introduz como Caórdico, criado a partir de sua experiência e estudos sobre complexidade (by the way, minha próxima leitura). A complexidade surgiu como um novo campo de estudos quando um grupo de cientistas reconheceu ser falha a ciência “tradicional” para explicar o universo a partir de métodos lineares de causa e efeito. A busca pela especialização científica fez o sentido generalista e holistico se perder e o cruzamento de conhecimentos aparentemente distintos é o que tem ajudado o desenvolvimento científico hoje.

 

“Na natureza da conectividade complexa, alguma coisa permite que surja uma ordem espontânea(…) essa ordem não parece obedecer a leis lineares de causa e efetivo. Conjectura, que todos os sistemas complexos, adaptáveis, existem à beira do caos, com um grau de auto-organização que da apenas para criar os padrões cognitivos chamados de ordem”

 

De sua inquietação, ele junta caos e ordem em um só conceito:

 

caórdico adj. [port.: caos+ordem] 1. Comportamento de qualquer organismo, organização ou sistema autogovernado que combine harmoniosamente características de ordem e caos. 2. característica dos princípios organizadores fundamentais da evolução e da natureza.

 

Nos processos de gestão, a psicose por comando e controle pode nos dar toda a segurança do mundo, mas será que essa é a única forma de fazer as coisas? Será que leva o projeto ou grupo ao máximo de criatividade? O pensamento caórdico é para quebrar caixinhas, horizontalizar relações, empoderar as pontas e viver e desejar o processo mais do que o resultado.

 

Tente explicar o que é um multirão na favela para um gringo e verá ele torcendo a cabeça para um lado e para o outro. Uma construção auto-organizada onde ninguém, ou quase ninguém, recebe salário por isso, além do churrasco no fim do dia. Somos caóticos por essência, mas é possível encontrar ordem nesse caos. Acredito que se pararmos de tentar nos adaptar a um padrão anglo-americano-científico de fazer as coisas e assumirmos nossa natureza criativa antropofágica tropical, certamente seremos mais felizes.

 

Inté!

 

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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