“A Visita” é o novo longa do indiano Manoj Nelliatu Shyamalan. Se você tá achando esse nome esquisito e nada familiar, provavelmente acha que não assistiu nenhum filme desse diretor. Deixa eu te refrescar a memória: “Sinais” (2002), “A Vila” (2004) e “O Sexto Sentido” (1999) (esse último, você pode até nunca ter visto, mas sabe que “I see dead people — all the time.”). Mas talvez essas referências tão boas sejam um problema ao assistir “A Visita”.

Não é que o filme não tenha seu valor e pontos altos fortíssimos, mas quem está acostumado às bem-acabadas e arquitetadas obras de M. Night Shyamalan pode sofrer um bocado.

A história é contada numa estética “filmagens encontradas”, e não é por acaso: um dos produtores é o Jason Blum, da franquia “Atividade Paranormal”, já bem familiarizado com esse tipo de narrativa. Sendo assim, todo o filme é contado sob o ponto de vista da adolescente Becca, uma menina de uns 15 anos que está obcecada em realizar um documentário sobre a relação da mãe dela com os pais, rompida há muitos anos. Para isso, ela e o irmão mais novo vão visitar os avós que nunca conheceram.

O irmão mais novo, Tyler (Ed Oxenbould) é um personagem à parte. Não é simplesmente um alívio cômico do filme de horror, é o alívio cômico na medida certa sem deixar de ter muita personalidade e função narrativa.

Chegando à Pensilvânia, os irmãos logo encontram os velhinhos adoráveis, que com o passar do tempo se tornam cada vez menos fofinhos.

Um clima de insegurança e terror se instaura entre os irmãos depois que assistem a avó ter surtos todas as noites. Desde vomitar pela sala até correr pela casa sem roupa arranhando as paredes.

Só por essa descrição pavorosa, é de se esperar uma atuação complexa e rica em detalhes. E é exatamente isso que a atriz Deanna Dunagan nos entrega. Aos 75 anos, ela encara cenas com um trabalho de corpo bem realizado e mudanças bruscas de humor e personalidade exigidas para a personagem. O mesmo, porém, em menor escala, acontece com o ator Peter McRobbie, que vive o avô dos garotos.

Atuações que deixam a desejar mesmo só as da protagonista Becca (Olivia DeJonge), que não tem carisma e não convence sequer nos momentos assustadores, e a da mãe das crianças, vivida por Kathryn Hahn, que beira o exagero e não passa nenhuma credibilidade como mãe.

Mas o que se sobressai às atuações meia-boca é o que M. Night Shyamalan sabe fazer melhor: construir um bom roteiro. Um roteiro sem brechas, que entra na cabeça do espectador sem que ele perceba. Absolutamente tudo está argumentado e o fechamento da história é uma verdadeira artesania do gênero de horror. O medo de “A Visita” está em todos os lugares: no que você vê, no que você não vê, no que vê apenas parcialmente, nos sons, na verossimilhança e na sensação de insegurança sentida pelos personagens.

E esse é um padrão executado por ele nos seus outros excelentes filmes já citados neste texto. Ou seja, Shyamalan sabe o que sabe fazer bem.

O próprio diretor financiou o longa, que foi filmado no interior e nos arredores de sua casa na Pensilvânia. Em entrevista, M. Night Shyamalan declarou que esse é um filme-renascimento para ele, e que estava sentindo falta de trabalhar com orçamentos menores dos que os que vinha trabalhando. É bom lembrar que seus últimos filmes foram de maior orçamento e acabaram sendo mal recebidos pelo público e pela crítica. Talvez essa seja uma “volta às raízes”, que eram boas, bonitas e baratas. Não conseguiu dessa vez alcançar o êxito de outrora, mas chegou perto. Nada mal.

Trailer do filme:

 

 

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Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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