Se você vem da arte, você sempre será arte.

Bowie, David

Um pouco mais de uma semana já passou, ainda falamos em David Bowie. E não é por menos, se vivemos no mundo de hoje é porque uma vez a nave do Starman pousou aqui. Uma das coisas que mais engrandecem um artista é o seu legado, Bowie foi um artista único. Foi aquele que dedicou sua vida à arte. Não apenas a música, mas a moda, as artes plásticas, a performance, a literatura e o audiovisual.

Não me lembro quando conheci Bowie, lembro-me de que uma certa maneira ele sempre esteve em minha vida e eu sempre soube quem ele era. Mas lembro-me muito bem do dia que me tornei sua fã e respeitei imensamente a sua obra. Foi na exposição David Bowie Is, no Victoria & Albert Museum em Londres.

Saí extasiada da exibição e com uma certeza: Bowie é único. Ele é a minha referência desde então, o primeiro filme que me deu medo e fascínio foi Labirinto, a música que me fazia viajar era Life On Mars, o artista que meu ex era fanático era Bowie, a trilha do meu filme preferido era Bowie, a música que embalava jovens rebeldes dos filmes dos meus filmes preferidos era Heroes e O Astronauta de Mármore me assombrava todas as festas de família.

Enfim, Bowie é Bowie. O Glam Rock não existiria, Madonna não existiria, a moda seria muito chata. Quando estive na exposição uma coisa era clara: Bowie era fascinado pela tecnologia, o espaço e o cinema. Em especial, um grande fã de Stanley Kubrick. Muitas de suas obras eram inspiradas no universo do cineasta. Bowie não apenas foi influenciado pelo cinema, mas o cinema também foi influenciado por ele. Separei alguns momentos audiovisuais para comprovar a magnitude do artista.

  1. Space Oddity 1969

Eu já citei esse vídeo anteriormente, mas é um caso a ser sempre referenciado. E uma das músicas mais dramáticas (no sentido artístico) e mais visionárias do rock (sem exageros). Bowie escreveu Space Oddity em 3 dias, após assistir o longa 2001 – Uma Odisseia No Espaço de Stanley Kubrick. E dois dias depois, o homem pisava na Lua. Bowie foi um artista sempre fascinado com o espaço e o cinema, e este tema exemplifica isso. A música virou o hino do homem na Lua. Sem contar a odisseia transgressora e performática de um personagem que posteriormente seria referenciado em sua obra.

2. Ziggy Stardurst – 1972

Bowie sempre esteve um passo à frente. Com Ziggy Stardurst ele inseriu as artes dramáticas, a androginia e a moda. Bowie sempre brincou com a sexualidade e sempre foi aberto a falar sobre ela. Seu extraterrestre Ziggy e sua banda desembarcavam na Terra nos anos 70 com o melhor rock’n’roll. Bowie incorporou o que seria o primeiro de uma série de personagens. Essa persona levava consigo as influências do teatro Kabuki. Sem Ziggy a cultura POP não teria Lady Gaga, nem Rocky Horror Picture Show, entre muitos outros.

3. The Man Who Sold The World – 1979

Essa apresentação no Saturday Night Live evoca toda a potência plástica e performática de Bowie. Pena que não há vídeos disponíveis fora dos EUA. Na apresentação o artista utiliza um figurino referente a uma performance de um grupo artístico da década de 20, que ele tomou conhecimento em sua ida a Berlim. A plasticidade da apresentação, o cuidado com a musicalidade, a colaboração com Klaus Nomi e a singularidade desse número influenciou muitos artistas. Imaginem, isso foi realizado em 1979. Bowie quebrou os paradigmas da arte com uma música. Quem tiver acesso à plugins pode ver o vídeo original aqui.

4. Ashes to Ashes – 1980

Esse vídeo pode parecer algo normal hoje em dia, mas se pensarmos que ele quebrou barreiras e mostrou novas formas de narrativas é um clipe genial. Lembram-se do filme A Origem (de Christopher Nolan), pois é, ele provavelmente não existiria. O que dizer do figurino? Da tecnologia? E da referência ao Major Tom de Space Oddity? Com Ashes To Ashes, o artista cria um universo bowieano (ou bowiesco) de interpretação e de personagens. Sem contar que Ashes To Ashes foi uma das maiores produções na época.

5. Heroes – Belim 1987

O vídeo está ruim, a imagem está ruim e não conseguimos ver Bowie. Porém, essa apresentação é histórica. Como já devem saber, Bowie viveu por um tempo em Berlim, o que influenciou sua obra. Sua trilogia de Berlim é um dos melhores momentos de sua carreira, entre eles Heroes, que faz menção ao muro de Berlim. Uma história de amor em tempos de guerras e conflitos. Essa apresentação foi realizada próxima ao muro, para que a Alemanha Oriental pudesse contemplar também. O que ajudou aos movimentos de unificação e posteriormente, a queda do Muro. Na morte de Bowie, a Alemanha se pronunciou e relatou a importância do músico na unificação da Alemanha. Bowie também é militante. Bowie é importante para a história mundial.

Ainda temos muitas obras e coisas boas para lembrar de Bowie, entre elas a sua coragem. Um artista falar abertamente sobre suas escolhas sexuais, usar as mudanças a seu favor, não ter medo de arriscar. Se Bowie não arriscasse ele não seria o grande artista que foi. E para finalizar, a alma plástica de Bowie… como um britânico caucasiano podia fazer blues como os negros americanos.

 

 

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Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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