Falar em Argentina geralmente causa uma reação negativa nos brasileiros. Não sei se a rivalidade começou com o futebol ou se é uma coisa natural. Entretanto, tenho que admitir que nosso vizinho e inimigo futebolístico tem uma carreira cinematográfica invejável. Não podemos comparar nossa trajetória, mas podemos aprender muito com eles.

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Brasil, Argentina e México lideram os números em produções e meios audiovisuais da América Latina. Somos o trio parada dura. Contudo, devido a nossa grande extensão geográfica e nossa “economia” (ainda que não esteja em bons lençóis, está melhor que muito país latinoamericano), somos o país com um grande número de lançamentos de longas,  investimento e mais telas de exibidoras. Todavia, quantidade não quer dizer qualidade.

Entre 10 filmes nacionais nos cinemas, aposto que 1 é de fato interessante. Uma das coisas que sinto falta no cinema brasileiro (e um dos fatores que fazem muitas vezes a não vê-los) é o fato da dificuldade em contrabalançar entretenimento e arte. Ou melhor, um filme ainda que seja de autor, tenha elementos que possam atingir o grande público. O que sinto falta em muitos filmes é justamente o diretor pensar um pouco mais em atingir o público sem perder a autenticidade de sua obra. Parece difícil? Pois, não é.

Alguns cineastas o conseguem. Como fez Marcos Jorge em Estômago (2007), ou Cidade de Deus (2002) de Meirelles e até Jorge Furtado consegue isso com Homem Que Copiava (2003). Nossos vizinhos sabem trabalhar com esses elementos. E muito bem. Para se ter uma noção, Argentina tem dois Oscars na gaveta e o Brasil sequer consegue indicações desde Cidade de Deus. Quase todos os anos vemos um filme argentino campeão de audiência, arrebatador de crítica, sucesso em distintas partes do globo, concorrendo aos principais prêmios ou sendo ovacionado nos grandes festivais. Que magia é essa? Qual o segredo? Vou listar 5 filmes, e com eles, o que podemos tirar do cinema argentino:

Filma isto, Néstor.

1. “A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.”

Filme: Relatos Salvajes

Este longa é a aposta da Argentina no Oscar desse ano (tô na torcida).  Uma narrativa multiplot, onde a vingança é o tema que os relaciona. Tramas absurdas com um humor ácido que nos lembra os filmes espanhóis.

O que podemos aprender com esse filme? 

Um filme original, simples, que se suporta em um roteiro bem escrito. Aprendemos que a vingança pode levar-te à ruína, ou não; depende de seu grau de profissionalismo. Com a melhor receita para vingar-se do marido infiel.

 

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2. “Quem acredita sempre alcança”

Filme: El segredo de sus ojos

Ganhador do Oscar, assim como o filme anterior, é estrelado pelo fantástico Ricardo Darín. Dirigido por um dos principais nomes do cinema argentino Juan Jose Campanella. Um investigador decide retomar um caso não solucionado décadas antes, para escrever seu romance baseado nele. História simples, porém, mais uma vez os argentinos saem do lugar comum e nos presenteia com um roteiro de primeira.

O que podemos aprender com esse filme? 

Não devemos desistir depois do primeiro fracasso, vai que no segundo você prospera. 😉

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Todas as vezes que tenho um encontro, eu sofro da mesma decepção como do Big Mac.

3. “O amor pode estar do seu lado” 

Filme: Medianeras

Em Buenos Aires, dois jovens, vizinhos, estão em busca de seu amor. Suas vidas compactadas em pequenos apartamentos, sufocados pela cidade e por maus  relacionamentos.

O que podemos aprender com esse filme? 

O que você procura pode estar debaixo do teu nariz. Literalmente.

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4. “Respect the cock”

Filme: Nueve Reinas

Dois malandros fazem o mingué. Sério, o filme mostra basicamente mingués. Poderia ser um filme qualquer, se não fosse estrelado por Ricardo Darín. Em 2004, recebeu sua versão holywoodiana.

O que podemos aprender com esse filme? 

Ser malandro na Argentina.

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5. “Eu fico com a pureza da resposta das crianças. É a vida, é bonita e é bonita.”

Filme: Valentin

Um menino que vive com a avó e tem uma relação distante com o pai. Uma vida um tanto brutal pelo olhar sonhador de uma criança. <3

O que podemos aprender com esse filme? 

Crianças sabem tudo!

Depois de 5 filmes, podem perceber que a maioria são estreladas por Ricardo Darín. E este é um fator muito importante no cinema argentino: os hermanos gostam de ver seus atores e respeitam-os. E o que mais me intriga é como sempre existe um ótimo personagem para Darín. Esse respeito tanto dos espectadores quanto dos diretores, que sempre estão a realizar filmes à altura de um ator como ele é muito importante. Darín recusou estrelar em Holywood pelo simples fato de não gostar do personagem oferecido. Com o passar dos anos, Darín ganha mais idade e mais personagens de acordo com sua magnitude. Isso é algo admirável.

Brasil e Argentina podem ter lá suas rivalidades em campo. Contudo, no cinema temos que aplaudir de pé a invejável cinegrafia de nossos vizinhos. Eles acreditam em sua arte e são orgulhosos dela.

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

4 COMENTÁRIOS

  1. Que bom que o texto esteja atingindo outros fãs do cinema argentino. Eles são um bom modelo. Filmes medíocres encontraremos em qualquer país, porém quis ressaltar como a Argentina consegue levar pro mundo o melhor dela… e como há tanta coisa boa sendo feita lá. De fato o Oscar não é parametro, mas é um reconhecimento.

  2. O Oscar não é o melhor parâmetro para medir a qualidade dos filmes, é mais que nada uma grande vitrine comercial, as indicações deste ano, tirando Relatos Selvagens, não empolgaram, e ainda estão causando polêmica pela falta de diversidade. Só pra constar, o Brasil ganhou um Oscar de filme estrangeiro com Orfeu Negro, ainda que este filme era uma co-produção de Brasil, França e Itália e foi dirigido por um francês.

  3. O problema do cinema brasileiro se chama Globo Filmes com sua estética pasteurizada de telenovela, a maioria dos filmes brasileiros são produzidos pela Globo. Os filmes argentinos realmente são melhores que os brasileiros no momento, e há filmes ótimos sem o Darin, e tem alguns filmes do Darin que não são tão bons ou muito repetitivos. E tem alguns filmes argentinos horríveis também. Estou super animada porque este ano começo a estudar audiovisual aqui em Buenos Aires.

  4. Muito legal a lista! São cinco filmes que ensinam muito sobre os costumes argentinos e portenhos também. Aqui na Argentina eles sabem explorar o cotidiano como ninguém. Os filmes brasileiros não têm na sua maioria essa mirada criativa sobre as banalidades do dia a dia.

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