É engraçado como o tempo pode mudar a perspectiva das nossas opiniões, de alterar a maneira como pensamos e estruturamos as nossas ideias. A Arte passa pelo mesmo com essas mudanças de paradigma. As vanguardas artísticas são esses momentos em que um grupo percebe que pode criar algo novo e apresenta determinada frente para substituir o seu antecessor.

O que é novo acaba por substituir o velho e o coloca para trás, para a memória. A ideia de vanguarda pode nos dar um olhar sobre essas novas opiniões e propostas. Devemos sempre estar aberto ao novo e ao que pode nos ampliar o olhar sobre determinado tema.

Eu já passei por situações em que as pessoas não entendem um tipo de ideia nova e se agarram em ideias antigas como se fossem verdadeiras. Isso é comum. Não somos educados a ver Arte, compreendê-la e estudá-la. Estamos muito fixos em um tipo de educação muito disciplinar e hierárquica onde, a Arte não entra com a sua devida importância social e intelectual.

Nesse contexto, os discursos que mais ouvi sobre Arte, que as pessoas tem, são básicos e tendem a ter uma certa arrogância que pormenoriza essa disciplina. Pela nossa dificuldade em entender a Arte (me coloco nesse grupo também!) selecionei as frases mais comuns dos mitos e ideias que as pessoas falam sobre o assunto.

 

1: “Para ser artista tem que ter dom.”

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Não, ninguém nasce artista. Ser artista é o mesmo que ser médico, eletricista ou advogado, requer tempo e estudo. A Arte é um campo muito vasto de conhecimento. Por ter essa característica, dificulta a sua aprendizagem e necessita do aluno um olhar mais apurado sobre determinado movimento ou obra.

Um artista passa horas pesquisando determinado tema da mesma maneira que um biólogo pesquisa determinada planta. No momento em que ele deseja desenhar uma parte do corpo, como um pé, precisa de tempo/análise de todos os movimentos e linhas.

Daí você pode me falar e a prática do desenho? te digo, nada mais que técnica e treino do olhar. O artista vê muito e vê tanto que aquilo fica na memória igual a como fixamos a habilidade de andar de bicicleta. Você pode até se enferrujar, mas nunca esquece o que aprendeu.

 

2: “Isso aí todo mundo faz, até uma criança de 3 anos consegue.”

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Essa frase quase me mata quando escuto. Na verdade não. Ninguém faz e nem uma criança de 3 anos. Isso por que requer três coisas básicas que todas as obras de arte tem: Contexto, Intenção e Inovação.

Pense comigo primeiro, a Arte é um campo fechado e muito restrito.

Imagine em segundo, um artista jovem e cheio de ideia que percebe que aquele tipo de movimento da sua época não mostra da melhor maneira o que quer representar uma imagem. Ele pode até fazer várias obras, mas quando for mostrar para alguém importante vai ser repudiado por não fazer o que está sendo feito no seu tempo.

Os impressionistas que conhecemos passaram pelo mesmo e foram ridicularizados por pintar diferente do que era comum na sua época. Como isso tem a ver com os dias de hoje? se aquela pintura parece de criança hoje em dia é por que teve um artista que ficou horas batendo cabeça no passado para mostrar isso.

 

3: “Não é bonito, não é Arte.”

Piero Manzoni – Merda de artista, 1961.

Não, nem tudo que é bonito é Arte e nem tudo que é feio também. A ideia que pra ser Arte tem que ser bela morreu no momento em que, a ideia por trás da obra pôde mostrar que a obra pode ser maior que a tinta e a pintura. Mostrar que a Arte tem a capacidade de romper com a plasticidade da tinta e ganhar novas regras e ideias.

Podemos dizer que a culpa dessa libertação final da Arte sobre o pincel veio da filosofia. Um campo que auxiliou a Arte a ser mais do que uma prática que delimita a beleza de algo ou mimetiza a cena de determinada paisagem. Por fim, mostrou a Arte como um estudo rico em propostas e ideias.

 

Último e mais importante…

 

4: “Não entendo nada de Arte contemporânea.”

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Olafur Eliasson – The Weather Project, 2003.

Nem a maioria das pessoas envolvidas no campo da Arte. Por ainda estar sendo “construída”, a Arte contemporânea esbarra com propostas que nos confundem, mas que estão totalmente inseridas nos signos do nosso dia-a-dia. Contudo, a intenção da Arte não é confundir quem olha uma obra, mas buscar na vida e na natureza elementos que auxiliem a sua aproximação.

A ideia não é mais estar presa na tela como se fosse mágica por ser a cópia fiel daquela paisagem, mas por nos relacionar, nos confundir e nos colocar como parte da Arte.

 

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

1 COMENTÁRIO

  1. Sensacional! Me lembrou o livro: Why Your Five Year Old Could Not Have Done That: Modern Art Explained.
    Numa tradução livre: Porque o seu filho de 5 anos não poderia ter feito aquilo: Arte Moderna explicada.

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