Exposição "Tombo", de Rodrigo Braga na Casa França-Brasil

Muitos movimentos artísticos se formaram pela inquietude de seus artistas. Manifestos são escritos como uma maneira de compreensão e entendimento da sua própria prática. Escrever sobre o seu trabalho é colocar em palavras as suas questões processuais. No campo da arte isso não é regra mas auxilia a compreender questões que permeiam a obra. Isso sempre foi problema pois, muitas vezes tendemos a querer entender a obra ao invés de fruir ou perceber ela pelos nossos sentidos mais ‘primitivos’, a audição, a visão, o tato e o paladar.

Infelizmente, acabamos racionalizando aquilo que não deve ser racionalizado. Buscamos caminhos, por vezes errados, para compreender uma obra sem dar espaço para o respiro de seu impacto. Quero colocar essa ideia (Respiro do impacto) como uma proposta de instante para respiramos e contarmos um minuto sobre o que vemos. Já coloquei em um texto anterior sobre como devemos compreender basicamente uma obra de arte mas, antes disso tudo devemos respirar com ela.

Pode parecer meio louco respirar ao lado de uma obra e isso sim é loucura somente se pensarmos racionalmente. Pense comigo que um trabalho artístico está vivo e atuante. Nesse momento, pensar em respirar ao lado dela seria como respirar ao lado de um leão preso numa jaula de zoológico. Sabemos de sua presença, que está vivo e que estamos apreciando algo belo e ativo. Uma obra de arte requer o mesmo cuidado: por vezes podemos tocar e interagir mas o mais importante é dar tempo aos sentidos.

Isso eu coloco como regra, não devemos passar por uma obra de arte com menos de um minuto só por que ela não é interessante o suficiente ou engraçadinha como queríamos que fosse. Arte é coisa séria e deve ser desfrutada da mesma maneira.

Tendo o nosso repertório sobre o que a arte já fez não devemos levar todas as suas diretrizes ao pé da letra. Cada movimento artístico foi responsável por romper determinado paradigma da arte. Seja a moldura da tela ou o material usado, tudo isso foi importante para um momento histórico. E hoje como seria?

Essa é a nossa pergunta que acabei respondendo acima. Somos bombardeados por imagens e textos todos os dias. Não damos conta das informações que apreendemos e não discutimos sobre. Pela velocidade da informação acabamos por nos ater somente na leitura de duas linhas de uma notícia e na piadinha engraçada do meme do momento. O problema é levarmos isso para o campo da arte. Achar que se fixar pela primeira ideia que temos de uma obra é entendê-la por completo é limitador. Um ‘pré-conceito’ sobre algo muito mais complexo que nossa leitura superficial de todo dia.

Se você quer realmente entender sobre algo e discutir com base sobre, deve ler o máximo que conseguir sobre o tema. Na arte, o tempo que fruímos sobre uma obra desata caminhos da nossa memória afetiva, profissional e intelectual. Nesse momento a arte contemporânea se torna mais acessível, não por que ela precisa disso mas por que você está aberto para ela. Como dica, deixo abaixo cinco artistas e suas obras para você se permitir a ler ela com esse tempo. Entendo que deve ser difícil esse exercício através de uma tela digital mas, vale a experiência.

Esteja aberto.

 

Scott Weaver – Rolling Through The Bay, 2011.

Um dos trabalhos mais interessantes de se apreciar. Weaver permite nos enganar com a sua técnica minuciosa ao recriar a cidade de São Francisco. O segredo está na bola que transita através de seu trabalho.

 

Wura-Natasha Ogunji – Wil I Still Carry Water When I Am A Dead Woman?, 2013.

A artista performática Wura-Natasha Ogunji reflete o feminino e o peso que carrega por ser mulher e negra na sociedade atual. Destaca a potente espetacularização da mulher ao esconder quem ela realmente deveria ser.

 

Michael Grab – Gravity Glue, 2014.

O lado minucioso e criativo de Grab coloca a gravidade em teste. Essa é uma de suas séries mais famosas.

 

Rodrigo Braga – Tombo, 2015.

Nascido no Pará, Rodrigo Braga discute o enfrentamento do homem com a natureza através de diversas mídias entre vídeos, instalações e fotografias. Traz questões sobre o orgânico, a natureza e em como nos relacionamos com ela.

Aldene Rocha
Nascido como um artista bastardo e um eterno aprendiz, se formou em belas artes por uma paixão de menino e seguiu levando ela até o além. Desenvolve trabalhos artísticos em diferentes mídias como vídeo, modificações em jogos eletrônicos, fotografias, instalações e intervenções urbanas. Participou de exposições coletivas e foca a sua pesquisa nas novas mídias aliada à teoria do cinema, na fotografia e na arte contemporânea. Mesmo não parecendo, curte uma praia e joga videogame nas horas vagas.

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