Não consigo achar uma palavra que descreva a minha sensação ao assistir os ocorridos no plenário da câmara dos deputados ao longo da tarde e da noite desse último domingo. A maioria das falas proferidas devem ter deixado muitos dramaturgos com inveja por não conseguirem concatenar um espetáculo teatral escatológico como o de anteontem. Em alguns momentos, era assombroso ver o quão forçado as palavras ali ditas soavam. Ficou claro que, nessa casa, o que menos temos são deputados, mas sobram atores, narradores de rodeios e fantoches.

Eis que no meio do turbilhão dramático surge o voto que nunca vou conseguir engolir e até agora me arrepia de aversão. A fala do deputado federal mais votado do Rio de Janeiro trouxe consigo um tsunami de ódio tão grande que uma única cusparada parece pouca. No momento, sinto que se continuasse a falar sobre o ocorrido talvez perdesse o foco, ficaria caótico e correria o risco de formar um discurso carregado com ódio; de ódio basta essa figura caricata e suas crias. Sendo assim, com a ajuda de uns amigos, a única coisa que consigo acrescentar nesse momento é essa lista de dez músicas para embalar a trilha sonora do “cuspidaço” nos fascistas! Não, não passarão!

What are we waiting for – Woody Guthrie

Nada mais justo começar a lista com o cara que pintou a frase “essa maquina mata fascistas” em seu violão. Apesar de apresentar um teor pró-guerra essa música é boa pra lembrar que é possível sim vencê-los.

Take the power back – Rage Against The Machine

Falar em músicas contra fascistas e não citar RATM é quase incoerente. Essa aqui, aliás, tem uma parte que parece ter sido escrita depois de ontem: “in the right light, study becomes insight/but the system that dissed us teaches us to read and write/so-called facts are fraud/they want us to allege and pledge/and bow down into their god” (tradução livre: “com a luz certa, o estudo se torna percepção/mas o sistema que nos humilha, nos ensina a ler e escrever/os chamados fatos são fraudes/eles querem que a gente aceite e se comprometa/e curve-se para o deus deles.”).

Pedras e sonhos – El Efecto

A banda El Efecto apareceu pra muita gente com a história épica entre o encontro do cangaceiro Lampião e o empresário Eike Batista. Apesar de ser uma ótima música pra estar nessa lista, Pedras e Sonhos tem um requinte de esperança com os toques certos de protesto. Não pode faltar.

Queda livre – Dead Fish

Dead Fish é a típica banda punk/hardcore que não se importa tanto com o mainstream e acha mais importante fazer músicas como eles gostam e falar sobre coisas que julgam ser importantes. O álbum Zero e Um foi o mais divulgado para o grande público, mas isso não foi motivo para deixarem de lado o tom de revolta, sem contar que a estrofe final de Queda Livre é um estímulo pra continuar: “O tempo já não me importa mais/Pois ainda estou aqui!/Eu ainda estou aqui!/Aceite, estou aqui!”.

Politicar – Tom Zé

Saindo do clima das guitarras altas e bateria rápida, essa daqui além do teor altamente incendiário que combina com a situação, ensina muito bem a deixar os xingamentos ainda mais insultantes sem que pra isso se ofenda alguma minoria que não tem nada a ver com isso. Quer mais o que?

El Aguante – Calle 13

Não consigo destacar uma parte só dessa música, aguentamos tanta coisa, mas tanta coisa, que vamos aguentar mais essa também. E nas palavras da própria Calle 13 “um brinde a resistência!”.

O dia em que o morro descer e não for carnaval – Wilson das Neves

Samba, força popular, conflito de classe, quer mais o que pra trilha sonora antifa? Além é claro de mostrar que a “divisão” do Brasil vai além de 2014 e a famigerada eleição que dura até hoje.

Rap da Felicidade – Mc Cidinho e Mc Doca

Seguindo a linha da anterior, essa daqui geralmente só é lembrada pelo seu refrão, mas as outras estrofes dão toda a força que essa música sempre teve. Um dos maiores sucesso do funk pra tocar alto nessa playlist.

Esquiva da esgrima – Criolo

Quando pensei em fazer essa lista, na minha cabeça já era certo que teria uma do Criolo e a escolha não foi fácil. O que me fez optar por essa foram dois versos que possuem uma força descomunal em suas palavras e ajudam a entender bastantes coisas, além, é claro, de fortalecer o motivo da lista: “calar a boca dos lóqui, pois quem toma banho de ódio/ exala o aroma da morte”.

Eu sou passiva, mas meto bala – K-trina Erratik

Salvei essa pro final por ter considerado a melhor de todas. Não me sinto minimamente capaz de acrescer mais nada além da letra, por isso fiquem com a própria:

“Eu sou passiva mas meto bala/ se vier tapar meu cu com a sua bíblia/ eu meto bala

Silas Malafaia/ ama o gay como ao bandido/ então ele me ama em dobro/ que sou gay e sou bandida/ Eu sou gay e sou bandida/ mas não transo o Malafaia/ Não dou bola pro fascismo/ Não tolero homofobia/ E se vier mexer comigo

Infeliciano/ diz que bichice tem cura/ mas se vier me curar/ ele é quem vai tomar uma curra/ Sou passiva violenta/ tô armada e meto bala/ Essa é uma declaração de guerra/ das bichas do terceiro mundo

Si no podemos ser violenta/ No és nuestra revolución

Jair Bolsonaro/ fala mal das prostitutas/ mas se tranca no motel/ e vai beber água de chuca

Vai, Edir Macedo, deixa de ser recalcada/ Vai, viado, se liberta abre o edi/ e vem pra festa”

Victor Antunes
Apaixonado por arte, tenho a música como primeiro amor nessa lista. Difícil definir um gosto musical, mas meu xodó incontestável é o blues. E sim, os Beatles são a melhor banda até agora e quem discorda ou não entende a obra deles, ou quer aparecer, rs.

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